Um Conto em Cima da Mesa (conto)

Domingo, 6 e 45, acho eu… e nada de dormir. O copo com o pouco que restou do Absinto denuncia minha noite. O cinzeiro plenamente sujo, improvisado em uma latinha de refrigerante, completava os motivos de minha iminente ressaca. Que terror seria o outro dia! Talvez por isso o sono tenha hesitado em aparecer, para evitar que eu pudesse ser arrebatado por uma dor de cabeça impiedosa.

Meu fígado, ser quase que inexistente, ainda sobrevivia aos últimos goles. O que fazer agora, passar um café? Nem louco. Meu outro parasita, o estômago, reclamava em pulsões e retrações com uma veemência descomunal, apenas com a idéia de absorver mais cafeína. E nada, até agora, de eu escrever. O que faço?

Tentei passar pelo amor, mas como escrever sobre algo que em minhas buscas achava pálido e sem graça? Depois, agora que acho a quem amar, como escrever sobre algo que não tenho ao meu lado? Amar pressupõe estar junto, ou não? Mais um farto – e último – gole do Absinto. Levantei-me disposto a esvaziar meu joelho, mas mal conseguia mirar o vaso, resolvi então ir direto ao chuveiro. Água gelada, escorrendo junto a uma lágrima ainda mais fria, que partiu de um coração gelado, que não consegue escrever nem sobre seu próprio amor.

Enxuguei-me e deitei, esparramado sobre um colchão que balançava tanto quanto os barcos de pesca com que eu costumava sair para dar voltas no mar revolto. Um misto de enjôo, ansiedade, prazer etílico, tristeza, depressão, raiva, autodestruição. E qual o motivo de eu não escrever sobre isso, sobre até minha própria crise de inspiração?

Nem carro eu tenho para sair por aí, em busca de algo que às vezes só aparece numa manhã fria de domingo; talvez um bêbado engraçado, um corpo largado, um sorriso apaixonado. Como poderia eu ver tudo isto? A vida lá fora e eu aqui dentro, nem ratos tenho eu para observar, baratas ou outros bichos esquisitos. Aliás, de esquisita só a paisagem cinza de minha janela, os vizinhos que não existem.

Acho que agora a embriaguez me toma, avassaladoramente. Os elefantes cor-de-rosa sobrevoam meu quarto. Meus olhos se enchem de libélulas coloridas, as alucinações me tomam. Corri para a janela para tomar um ar, detesto ser tomado pela embriaguez desta forma. Fui à cozinha, tomei copos e copos de água. Meu suor esfriava, ao passo em que a temperatura de meu corpo oscilava ferozmente. Que crueldade! Por falta de inspiração, acabei com quase toda minha sanidade, pelo menos alguma que tivera um dia.

Pousei minha cabeça lentamente pela mesa improvisada, com pouca força, passei a caneta no papel e escrevi isto. Não que haja uma total, verdadeira e sincera expressão de tudo que me aconteceu nos últimos minutos, mas as sensações são exatamente assim, ou então, será que estou eu delirando o tempo todo em cima desta mesa?

Daniel Pinheiro

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"Sou obrigado a reconhecer que, com toda a corrupção que teve de um tempo para cá, o que encontramos no governo Collor deveríamos ter enviado para o juizado de pequenas causas". (Sen. Pedro Simon)

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