Osama McDonald 85,5gl (crônica)

O que mais gosto em alguns discursos que tenho lido ultimamente – por favor, nada pessoal, muito pelo contrário – é o fato de que, aproximam-se as eleições, aprimoram-se e afiam-se os discursos.

Achei isso engraçado, quando comecei a entender o mundo (e isso não faz muito tempo). As pessoas, os cientistas, o mundo, se preocupa mais com o tempo, com o correr do relógio, do que apenas aprender com ele. O ataque ao WTC era anunciado. A  revolta islâmica é declarada! O extremismo – de direita ou esquerda – é mais que o óbvio (como diria J Florêncio sempre inspirado, creio, por Nelson Rodrigues – ululante).

Sentei-me em 11 de setembro e comecei a refletir sobre o mundo. Resolvi seguir, uma das poucas vezes de minha vida, o passo do relógio, e pensar como tenho visto o mundo pensar: pensar somente no óbvio, no facilmente tangível. O fato é que este dia foi marcante, para muitos, claro, mas cabia ao meu vago cérebro pensar, “e para mim, o que interessa?”. Comecei – repito – primeiro pensando, no passo do relógio, aonde eu chegaria se achasse essa resposta. A primeira coisa que me veio à cabeça foi: o mundo está se debatendo, se roendo, os opostos estão se atraindo – e irão colidir!

Críticas à parte, fosse nos EUA ou em qualquer parte do mundo, esta minha reflexão acabaria por aí. Mesmo que eu comece a tentar a pensar deste modo, vejo que o mundo caminha – e muda – não no ritmo do relógio, mas no ritmo do sangue que corre nas veias de bilhões de pessoas. Seria hipocrisia concordar e render-me ao dia 11 de setembro. Esperei.

Cheguei hoje, dia 18 de setembro – 7 dias portanto – com a cabeça fervendo em revolta. Lancei-me a um copo de absinto “globalizado” (entenda-se como quiser) e comecei a fervilhar ainda mais meus pobres e desacostumados neurônios. Minha revolta era essa ânsia de dizer à minha imagem refletida no espelho: “por quê comecei a pensar no ritmo do relógio, o que eu queria, onde eu queria chegar?”

A resposta veio, talvez, aqui. Uma vontade imensa de expressar – pela primeira vez publicamente – meus anseios e percepções. Com isso, quero dizer apenas que, mesmo desde criança tendo criado um pensamento de que os extremos não levam a lugar algum, não poderia ter deixado passar aquele dia, 11 de setembro. Os e-mails, as reportagens, o marketing, tudo que vi naquele dia me chocou.

Chocou-me ver um mundo abobalhado: por um lado, com crenças dogmáticas de “bom e mau”, por outro lado com sua livre exposição à “lavagem cerebral”. Por que as pessoas não se preocupam em ler, estudar, trocar idéias, e sair um pouco do cárcere do relógio, e passam a sorrir umas para as outras, ao invés de apenas farpearem-se e se distanciarem uns dos outros?

Talvez, sair deste cárcere signifique apenas começar a ver que o mundo muda, num ritmo jamais visto pelo homem, e não falo de velocidade, falo de crueldade. As pessoas tornam-se cada vez mais perdidas em suas próprias idéias, não sabem o que pensar, por onde pensar, e quando o fazem, acham que apenas elas estão corretas. Eu estou fazendo isso, aqui. E não falo de livre expressão, falo de estarem “perdidas”, esperando a salvação. Será Deus ou Alá? Será Bush, será Sadam? Quem irá nos salvar, o homem da Bíblia?

É isso que falo, de crenças. As pessoas passam tanto tempo de suas vidas preocupando-se em quê ou em quem acreditar, que esquecem simplesmente de viver a vida, aprender com ela. Hoje, não mais aprendemos com a vida, mas com o que nos ensinam delas. Pare para pensar, quantos poucos escolhem a música que ouvem, sabendo o que realmente estão escolhendo? Aliás, quantas destas músicas ficam, durante a vida destas pessoas? (não seria esta a “função” da música?).

E o que faço, neste meu último gole? Penso na eleição, que chega, mas esqueço do ritmo do relógio, do cárcere inoportuno. Talvez, fosse eu capaz de votar em 5 partidos diferentes numa mesma eleição, não por pirraça, não por demagogia, nem por fraqueza ideológica. Mas, por simplesmente, saber que eles – os próprios candidatos – ainda não terem descoberto o que é política. Será que eu sei? Acho que não, aliás, certamente não, mas também, não creio que seja isso, ou uma “guerra quente” EUA versus oriente em chamas publicada e editada em um dos lados, apenas.

Deixo, aqui, uma impressão, enquanto acendo meu cachimbo. O mundo não é direito ou esquerdo, a luta nunca será capitalismo versus qualquer coisa, as pessoas não serão, jamais, boas ou más. Se tudo é feito de contradições, esta minha reflexão é apenas um esforço, de um semi-ignorante, de tentar acordar e pensar um pouco, novamente, fora das estapafúrdias impressões que o mundo me deu, neste último ano.

Desgosto? Talvez, para com as pessoas. O que vou fazer, tentar mudar algo? Jamais, quem sou eu. Revolta? Não, desculpa para tomar um gole de uma boa bebida, dar uma boa cachimbada, criticar as minhas próprias reflexões, esbaldar-me de rir com o que escrevi e dormir sossegado. Quer alguma lição de moral, alguma solução? Melhor não, se eu soubesse, nem isso teria escrito, estaria numa praia, pescando, plantando, fazendo filhos – com 1 mulher apenas (nota para os engraçadinhos) – e tentando ajudar quem eu pudesse ajudar, e só. Se soluções eu tivesse, que motivo teria eu para tomar esta última gota do copo?

Meu recadinho, apenas: “tente aprender o passado, o presente, e lembrar que o futuro é seu, mesmo que você esteja num prédio, e ao olhar pela janela, veja alguém querendo jogar um 747 contra você: aí você  pense em tudo que você aprendeu do passado, lembre do último segundo vivido, onde você comia um BigMac trazido por um motoboy esbaforido – mesmo se você achar que alguém tem que fazer o trabalho sujo, olhe bem pros olhos dele e agradeça, ele merece, olhe nos olhos do piloto do avião, e agradeça por ele estar te poupando de ver o que virá depois, como conseqüência, e quando agradecer, peça desculpas, sem perguntar o porquê”.

NOTAS:

    1. Sei que muita gente não vai entender por quê eu escrevi essa crônica. Umas pessoas, vão pensar: “é isso aí gordinho, detona!”. Outras vão dizer: o quê? “O cara pirou”. Ou ainda: “mais uma de bebum”. Se você pensou isso, qualquer uma dessas coisas, me desculpe, mas se você tentou entender o texto acima, esqueça, e vá tomar uma cerveja!
    2. Entendeu pelo menos o título?
    3. Aceito “releituras”, críticas, sugestões ou qualquer tipo de retaliação no e-mail: em meu quadro de mensagens e prometo tentar responder aquilo que for possível.
    4. Desculpem, minha vontade era de traduzir este texto em, pelo menos, 4 línguas, mas minha incapacidade intelectual não me permite.
    5. Este texto foi escrito um tempo após o “11 de setembro” e, portanto, poderia fazer algum sentido – se é que deveria fazer, nunca achei que sim – à época!

      (Daniel Pinheiro, setembro/2003)

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"Sou obrigado a reconhecer que, com toda a corrupção que teve de um tempo para cá, o que encontramos no governo Collor deveríamos ter enviado para o juizado de pequenas causas". (Sen. Pedro Simon)

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