Cal, Areia e Sonhos

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Foto: Acervo Pessoal da Autora (Istambul, jan/2010)

Cal, Areia e Sonhos

“Era um dia como outro qualquer. Andei um quarteirão e cheguei ao ponto de táxi. Entrei no primeiro carro da fila e, como todos já me conhecem, não preciso mais especificar meu destino. Abri a janela, pois gosto de sentir o vento e olhar a paisagem sem filtros. Confesso invejar os pássaros, já sonhei por vezes que voava. Então aproveito os momentos com relativa liberdade, como se a viagem pudesse durar horas, ao invés de poucos minutos, e o meu destino fosse outro que não aquele de sempre. Algumas vezes seguimos no mais completo silêncio, em outras, as conversas giram em torno de assuntos cotidianos e maçantes como o tempo, a política e o futebol, mas algumas viagens são diferentes das outras e tomam certo ar de abstração. Hoje foi um dia destes.

Acordei com uma sensação de leveza, então me vesti de amarelo, afinal não estou alegre, muito menos triste, estou fluída. Este estado parece mesmo uma benção para mim, nunca havia me sentido assim, não nesta intensidade de experimentação do etéreo. Ando mesmo é distraída do tempo e das coisas, deve ser a Lua ou a idade, vai saber. É uma forma de cansaço, não sei ainda o que é envelhecer, pelo menos não exatamente, mas se for algo assim, parece-me boa ideia.

Confesso ser uma amante dos sons e das melodias, nada me toca ou conquista mais do que a música ou as vozes que, por dádiva, são belas. No entanto, mesmo com este meu gosto por vozes, quando estou em momentos de introspecção, não me agrada nem um pouco conversar, mas aquela voz penetrou o silêncio, sem desrespeitá-lo. Era de uma tonalidade sóbria e intensa, robusta como a de um barítono, mas menos grave. Ela tomou o ambiente com uma riqueza de escalas que chamou a minha atenção. Era uma voz com um timbre familiar, que acabou por provocar em mim uma sensação de nostalgia, que me tocou intimamente e, sendo assim, foi capaz de me retirar do meu estado de suspensão individual, para me inserir em um universo tão ou mais intimista, ao dizer “Tenho pensado muito no que há de mais importante entre os homens e acho que não são as diferenças, mas as igualdades”. Ao ouvir isso, a voz a minha frente prendeu a minha atenção. E continuou, “nos igualamos nos sonhos, não nos objetivos ou opiniões, mas nos sonhos”.

A conversa continuou por mais alguns minutos. Cheguei ao meu destino final e, como de costume, disse ao sair do carro “obrigada/ bom dia para o senhor/ até a próxima”. Ele respondeu com um sorriso de cumplicidade, “igualmente, digo, igualmente!”. Desci do carro e me vesti de cal e areia, assuntos importantes e de natureza concreta seriam discutidos e resolvidos naquele dia. Em meio a uma dança de corpos e propósitos, olhava com admiração e alegria a energia dos dançarinos e a euforia do ritmo das conclusões dos trabalhos. Intimamente, no entanto, olhava a paisagem pelo vão da janela e admirava luz refletida nas folhas verdes que cintilavam livremente ao vento e, com o prazer ilícito de uma espiã, eu me perguntava, “com o que os dançarinos sonham?” Voltei para casa, atravessei a margem do dia para o conforto da noite e da solidão e, cansada que estava, sonhei…

por: Ana Paula Menezes Pereira, 18/02/14

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"Sou obrigado a reconhecer que, com toda a corrupção que teve de um tempo para cá, o que encontramos no governo Collor deveríamos ter enviado para o juizado de pequenas causas". (Sen. Pedro Simon)

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