Vote ou Morra?

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Em 29/10/2016*

Prólogo:

Poderia começar esse texto com a seguinte frase: “aproxima-se a votação em segundo turno em algumas capitais, e o “debate” eleitoral chega ao seu fim, em um tom mais baixo que o esperado”. Além de ser óbvio e pouco criativo, condenaria minhas linhas introdutórias ao ostracismo mental. E não quero. Assim como não quis me render à tentação de despejar a letra da música que dá título ao artigo, em respeito aos leitores pela quantidade de palavrões (não procure se não quiser se chocar com o absurdo de palavrões e uma linguagem grosseira e desnecessária, é sério). Mas, se realmente quiser (já foi avisado), uma busca rápida na internet, e facilmente encontrarão o modo como eu realmente poderia começar. E, aos estômagos mais sensíveis, um resumo do que se trata a ideia do “Vote or Die”: vote ou morra. Isso mesmo. É a ideia de que, na democracia, o voto é o que há de mais importante, e você é obrigado (literalmente com uma arma na cabeça) a votar, para legitimar a democracia. Entendido?  Democrático, não? Assim, vamos ao texto.

Ato I – A Escolha Determinada:

O nosso modelo eleitoral, de fato, sempre facilitou o determinismo na escolha eleitoral. O óbvio reflexo disto é a quantidade de pessoas que elegem políticos sem crer em sua capacidade, apenas porque são as “escolhas dadas”, “é o que tem”. Frases famosas, como o “rouba, mas faz” não poderiam circular na sociedade como normais. Não, são verdadeiros absurdos, legitimados por um processo de escolha em que as opções são praticamente dadas ou ficcionais.

O modelo está errado, e não combina com o perfil de sociedade que construímos, e nem dá uma ideia do que queremos construir. É inconcebível se debater democracia num modelo com quase quarenta partidos, com voto obrigatório, com um modelo de coligações absurdas e com um processo ideológico vazio e sem sentido, culminando em uma “festa” com voto obrigatório. Ver pessoas “inteligentes” orientar escolhas no “menos pior” é, no mínimo, uma farsa. É caso de encher os consultórios dos amigos psicólogos, ou mesmo, clínicas psiquiátricas, achar que isso é “normal”, “é o que temos”. É imoral iniciar, novamente, trabalhos para uma reforma política com o discurso de que, primeiro, deve-se rever o modelo de financiamento. Ou a sociedade se envolve rapidamente, e pressiona sobre possíveis mudanças, ou, a exemplo das últimas “reformas”, o processo só tende a piorar. Reforma política não deve ser feita por políticos. Mas quem a faria?

Ato II – A Escolha Anulada:

Cena I

Um dos movimentos que ganhou força na última década foi o do Voto Nulo. Eu, particularmente, militei em favor do voto nulo, quando o cabe, – e continuo a jornada – por duas razões. A imediata, liberdade de (não) escolha, parece mais simples de entender; a segunda razão, é estratégica, e proposital ao processo de reforma.

O argumento de quem é contrário ao Voto Nulo é o de que, ao anular o voto, você favorece ao candidato que, teoricamente, “estaria na frente”. Correto, principalmente em segundo turno, quando só dois candidatos estão na disputa, e teoricamente o Voto Nulo faria mais sentido porque você não se vê representado. Difícil, não? Não! Além da defesa da liberdade, aqui faria mais sentido o segundo argumento, o da razão estratégica.

O elevado votos inválidos não significa que você “não está preocupado” com o futuro da cidade (estado, país), mas sim, que entende política e que o sentido (forma) das eleições está errado. Analise os dados das eleições, e verá que em muitos locais candidatos se elegem, hoje, com um número total de votos inferior ao número de votos inválidos. Isto reflete uma população indignada, tanto quanto uma que pouco liga, para o processo eleitoral. Esta deveria, em tese, ser a maior arma para se promover uma reforma política. Assim, anular o voto é cada vez mais estratégico. O único porém: isto deveria ser, não só um ato consciente, mas também um ato de militância. Ao fazer isso, o cidadão precisa se comprometer também a pressionar a reforma política, especialmente, a rever o processo eleitoral. E neste ponto, sou obrigado a dar razão a quem é contra anular o voto: ainda não temos maturidade para isso. E agora, como ficamos nesta encruzilhada? Esperamos o caminhão passar e levar a todos, novamente? Entregamos nas mãos dos políticos profissionais?

Cena II

De qualquer modo, continuarei a discordar de uma coisa: a culpa não é do povo. Coloca-se na conta do povo a escolha de maus políticos e maus gestores. Não, esta escolha é dada, é determinada. Partidos são grupos de interesse, poucos (sim, alguns o fazem!) agem de forma honesta com a ideologia a que se propõem ou tem algum interesse maior que uma fatia de recursos para continuarem a sobreviver. Precisamos acabar com isso, e livrar-nos dessa culpa. Uma sociedade inerte, pouco mobilizada, não vai a lugar nenhum, e só será manipulada. Assim, se votar nulo, seja bem vindo ao grupo, mas lembre-se: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades!”

Ato Final – A Vida Continua

Muito embora eu defenda a liberdade de você escolher, é claro que aqui não defendo fazê-lo de maneira responsável. Isto exige um processo de amadurecimento e conscientização política que estou longe de acreditar que possa acontecer – e eu duvido que eu mesmo tenha passado da primeira série nesta formação! A maneira de fazer o Voto Nulo funcionar é muito complexa, e veio sendo minada, ao ponto de muitos, hoje, não acreditarem que seja uma forma válida numa democracia, ao que obviamente discordei ao longo desse texto. Discordei, mas jamais desprezarei tais argumentos, pois eles são muito mais palatáveis, quando postos à mesa.

O fato é que, neste 30 de Outubro, novamente teremos a chance de fazer esta escolha. Mas, a democracia não é uma festa, e nem é você que só serve para limpar depois que ela acontece. A democracia é um processo, e você, mesmo minúsculo, é a engrenagem principal. É aquele parafuso, que se perdermos, a monumental máquina pode não funcionar direito. Ou, até pode, mas não será legítimo. Após as eleições, a vida continuará, mas será que nos sentiremos responsável por ela ou seremos, de novo, conduzidos? Você escolheu se entregar, ou vai tentar, desta vez, conduzir?

Bom voto. Ou não!

Daniel Pinheiro

*Este texto é propositalmente datado, pois me reservo ao direito de mudar minha opinião sobre o assunto a qualquer momento. Trata-se, ainda, de uma posição pessoal, não acadêmica, a qual exatamente por este motivo me reservo a não fazer referências ou trazer base alguma para esta discussão, a não ser os mesmos argumentos que carrego comigo desde os 16 anos de idade (e que, em sua maioridade civil, comprovadamente não funcionaram, mesmo assim os mantive). Divirtam-se!

 

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