Libertinagem como Liberdade? (por: Daniel Pinheiro)

IMG_0656

As redes sociais, primeiro o Twitter e, notadamente o Facebook, criaram uma ideia de liberdade que ultrapassou os limites de seu próprio significado. Parece-me um pouco óbvio que a ideia de conectividade em rede tenha justamente o significado de ampliar a capacidade de alcance de pessoas e ideias, multiplicando as potencialidades de expressão. Não à toa, como negócios pioneiros e que mais chamaram atenção, estas duas redes dominam até hoje as chamadas mídias sociais, trazendo à reboque – e igualmente conectadas – um sem número de outras mídias sociais que tentam levar, além de ideias, outras mídias e formas digitais pelas estradas virtuais. Formou-se uma teia e, mais que isso, um caminho sem volta para uma sociedade interconectada.

O que muitos não refletem, talvez, é que este é um caminho sem volta também para comportamentos sociais. Vou me ater justamente a Twitter e Facebook como forma comparativa apenas por limitação de argumento, mas estes exemplos podem ser extrapolados. A principal diferença de ambas as redes é que o Twitter prezou, em seu início, pela comunicação rápida. De fato, gerou um possibilidade imensa de interconexão, pois a simplicidade das mensagens de 140 caracteres levava a ideia inicial, o essencial, em meio a rede. Operacionalmente – e considere a tecnologia como fundamental – é muito mais fácil e econômico de se espalhar 140 caracteres. Logo, a essência do Twitter, de fato, era a ideia, e não somente o gerador da ideia. Já o Facebook tem uma típica centralidade na pessoa, no produtor da ideia. Assim, a sua evolução quase que natural foi incorporar mais rápida e precisamente todas as mídias possíveis – fotos, vídeos, conteúdo externo, aplicativos, etc. – de modo que a pessoa pudesse ter um espaço onde fosse capaz de fazer absolutamente tudo para alimentar a si mesma.

Sendo assim, estas duas redes transmitem, de forma diferente (apesar de o Twitter vir insistentemente tentando ampliar suas capacidades de incorporar outras mídias), o comportamento de pessoas em suas redes, de modo a permitir a exposição em pequena ou grande intensidade. Deveria ser uma escolha individual – e de fato o é – a capacidade de exposição, sendo assim o elemento fundamental da liberdade. O grande problema é que, sistematicamente, o ser humano demonstra que a exposição prolongada a muitos outros (no caso, sua própria rede) alimenta o seu ego, fazendo-o reproduzir os comportamentos de forma mais intensa e sem moderação. O bom senso passa a dar lugar ao desejo de exposição, a autopromoção e à soberba. Há uma clara necessidade de expor cada vez mais ideias, coisas, de ser o centro das atenções. Para isso, quebram-se algumas regras sociais e criam-se outras, aumentando exponencialmente o número de pessoas que excedem o limite da razão, quebram os contratos sociais, em nome de uma “liberdade”, que na verdade se demonstra em forma de libertinagem.

A libertinagem clamo pela essência de seu significado, de transgressão sistemática, irrefletida, de indisciplina. Rompem-se (muitas vezes, declaradamente esta é a intenção) os dogmas sociais, em nome de um mero desejo de superexposição. Ao fazer isso, em rede, além de naturalmente colocar-se como um chato, egocêntrico, alimentamos a incapacidade de manter a coerência, de manter o bom senso, e em casos extremos, o respeito. Ter liberdade não significa ter que, a todo momento, colocar sua opinião acima de tudo e de todos. Isso é libertinagem, quando não, arrogância. E em última instância, é essa arrogância que, em rede, tem um alto poder de nos distanciar ainda mais de círculos saudáveis, e nos manter em círculos viciosos de pessoas com os mesmos problemas.

Sendo assim, antes de publicar, de entrar no “assunto da moda”, de filiar-se a ideias de outros que parecem sedutoras, pense se isso está dentro dos limites do bom senso, seu e de  seus amigos, ou pelo menos, das pessoas que lhe interessam. Você pode não apenas estar se isolando socialmente (e achando que tem 3000 amigos no Facebook o faz o centro das atenções), mas também perdendo oportunidades no mundo real (o que de fato já acontece, de muitos não terem um emprego, um trabalho, por posturas exageradas nas redes sociais). O mundo, sobretudo o “mundo real”, ainda é capaz de distinguir liberdade de libertinagem. Talvez (e espero que se mantenha) seja parte da herança genética que ainda nos separa dos macacos.

Por Daniel Pinheiro.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s