8 ou 80 (mil). O que importa? (por: Daniel Pinheiro)

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*IMPORTANTE: Se você se ofende fácil ou não tem paciência para se questionar, não leia esse texto. Sério, vá ler um livro que ganha mais. Essa é apenas uma opinião, apenas mesmo.

Fico realmente espantado – e entristecido – que tenhamos no campo político um dos mais esquizofrênicos embates acerca do que signifique, para a nossa sociedade, o conceito de democracia. Muito embora pareça que avançamos, principalmente, no que tange à participação popular, os reflexos são evidentes de que retroagimos, e de forma perigosíssima.

As redes sociais, evidentemente, ampliam as vozes – inclusive as destoantes – e permitem uma pseudo-audição de todos aqueles que se prestem a registrar sua opinião. Acontece que, assim como no já dito mundo dos unicórnios, criamos um imaginário tão fantasioso que acreditamos ser verdade.

No episódio do impeachment, é fatal que tenhamos uma massa inerte. Sim, uma massa que acredita estar em movimento, mas que nada faz. E o pior, essa massa não tem lado, não tem cor. Vejamos…

Quando se afirma, categoricamente, que o impeachment é golpe ou ato antidemocracia, apenas reforça-se que o poder (no sentido político-ideológico) é maior que as instituições democráticas instituídas. Ora, o argumento da eleição por voto é tão pífio e risível, que alguém que brada o discurso da anti-democracia ou do golpe deveria envergonhar-se de não pensar que, o voto é a mínima das instituições democráticas, e só faz sentido se todos os organismos, instituições e prerrogativas democráticas funcionarem. Ou teremos uma “democracia de cabresto”, modernizando a expressão tão conhecida outrora.

Mas, talvez você não se convença quando eu afirmo do tamanho da imbecilidade unicórnica, e use a prerrogativa que eu devo ser um “salgado de boteco antivermelhos” para parar de ler este texto. Se acha isso, aliás, nem precisava ter começado. Eu também acho que o impeachment é um erro, e que teriam argumentos a serem plantados muito melhores – e menos idiotas – do que afirmarem que é golpe. Até porque, o ato foi o mais utilizados pelos próprios seres que bradam o tal “golpe”, inúmeras vezes, como “instrumento democrático”. Questionar um governo, aliás, é um ato político e democrático, seja por ação ilícita (que deve ser provada, o que não vejo ainda ser o caso), seja por incompetência (sim, e aí, sou contra o governo, e o questiono constantemente). Portanto, é ato democrático. Assim como é importante tomar partido, e assumir o seu lado, é também poder escolher, poder mudar, poder refletir sobre tudo isso, antes de seguir a maré de discursos fáceis de entender e de compartilhar, sem pensar muito.

E por falar em ato democrático, a razão de eu escrever – e do título – é justamente a loucura coletiva representada neste último 13/12, na ocasião dos protestos pró-queda da Presidente. Sou extremamente a favor de qualquer forma de protesto, bem como de que os grupos contrários/favoráveis adotem estratégias de defesa de seus interesses. O problema, a meu ver, é a escolha de estratégias. Se qualquer grupo, hoje, antigoverno sair às ruas, é fato que em minutos as redes sociais se encherão de questionamentos acerca do quantitativo de pessoas que ali estão. Agora, atenção: se você foi um dos que compartilharam maciçamente imagens e dados, ridicularizando os protestos, e teve a coragem de chegar a ler até aqui, por favor, pare. Eu vou lhe ofender, e mais, eu vou me sentir no direito de fazê-lo, pois lhe avisei antes. Por favor, realmente não siga a leitura, e seja feliz.

Se você decidiu seguir para este parágrafo, então, atente para o seguinte: nas últimas décadas, desde o tempo da ditadura (aquela que uns falam que tem saudade, outros tem aversão) o maior instrumento para o chamado processo de redemocratização foi, justamente, a ação popular (coordenada ou espontânea). O que derrubou o ex-presidente Collor não foram os milhares que foram às ruas, mas os 8 gatos pingados que começaram, numa esquina qualquer. Não havia internet para ridicularizar. Eu mesmo presenciei, à época, greves em que um sindicalista gritava no carro de som e meia dúzia o acompanhava embaixo de uma árvore. E só! Não tirei foto – nem ridicularizei – pois aprendi que aquilo era exercício da democracia, ainda bem. Li sobre 10 que foram à rua protestar e um dia levaram sarrafo. Li sobre milhares que foram, e levaram bombas. O argumento de quantos foram à rua é explosivamente ridículo, quando lembramos que foi indo a rua que este governo se fez, chegou ao poder. Mais ridículo, quando os grupos que clamam por democracia são justamente os que ridicularizam os que vão à rua. Então, amanhã, se não estiverem no poder, se não forem maioria, também não poderão ir à rua? Posso eu – ou qualquer outro – lhe ridicularizar? Lhe chamar de golpista ou seja lá do que for? Vai ser muito interessante mesmo, pois está se dando ao outro o tratamento que pode lhe ser feito, e ensinando que nenhum lado mais terá razão para nada. Assim, me parece muito claro que o buraco que se cava é ainda mais fundo do que se pretende em qualquer ditadura.

Mas, e daí? Qual a diferença de 8 ou 80 mil? Ser um imbecil lhe faz questionar a quantidade? Sim, e isso é tão idiota como dizer que 80% querem que a Presidente caia. O número, não diz nada, sem uma ação correlata, contundente. Ela pode cair com a vontade de uns, ou de milhares, se for o caso. O uso correto das instituições democráticas responderá sobre isso. A possibilidade de dar minha opinião – ou a sua – e debater sobre isso, de ir a rua sozinho ou com milhares, é que faz a democracia. Pense nisso, antes de ser um imbecil. E, na boa: seja feliz!

Daniel Pinheiro

2 opiniões sobre “8 ou 80 (mil). O que importa? (por: Daniel Pinheiro)”

  1. Verbalizou as palavras da minha boca! Essa necessidade de quantificação é irritante, desnecessária e ridícula, bem como a vontade de ganhar no grito sempre.

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