Crônica de uma Morte Anunciada: O fim!

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EDITORIAL DE ENCERRAMENTO

Foi com grande pesar, que anunciei às primeiras páginas do mês de novembro o fim do Blog Debatepronto. E, não à toa, escolho uma obra literária com título e forma equivalente, para deixar como registro de nossa última postagem. Assim como no livro de Gabriel Garcia Marquéz que anuncia a morte de Santiago logo em seu início, também o fiz. E da mesma forma, não pretendo deixar claros os motivos para tal desfecho.

Como na primeira vez (há muito tempo) em que li a obra, a minha sensação era que o autor não queria matar uma personagem, e sim, construir o espetáculo do mistério da morte no imaginário, relevando-a à um plano em que, mais do que o culpado, as circunstâncias fossem postas em sobreposição ao fato: a própria morte. Não acho essa a melhor interpretação do livro – nem tampouco acho o melhor livro deste autor -, mas a minha inocente interpretação de adolescente para o livro é a mesma que tensiona o motivo de eu não responder – e não responderei – à todas as motivações que levam ao fim do blog. Posso, sim, afirmar que as eleições deste ano – o processo eleitoral, em si – e a nossa ausência do debate (nada pronto) por si podem configurar-se em um motivo. Assim como um crime passional, seríamos vítimas de nossas próprias paixões.

Particularmente, acredito que todo espaço para o debate é democrático, mas nem toda democracia permite o debate. Esta minha observação é tão particular quanto, talvez, seja a sua opinião sobre isso. Ter opinião, de fato, nos permite debater. Mas, ter opiniões demais, talvez nos faça superar todo e qualquer limite do que possa ser razoável no convite do social, e ao levantarmos mais e mais argumentos, em algum momento, se deixe a razão, e se tome a paixão em nome da voz. E a voz se torne tão pesada quanto a mão que cala.

Os debates que acompanhei nas redes sociais nos últimos tempos, sobre tudo, sobretudo não foram debates, nem foram razoáveis. Achei até que o artigo que encerraria este blog seria sobre a demência e a evidente sociopatia em que se encontram um número cada vez mais – espantosamente – maior de pessoas. Quando um nível de alta exposição pessoal se torna lazer, é preciso parar e respirar para, num momento de lucidez, tentar entender o que se passa.

Assim, caro leitor, só nos resta agradecer pelo mais de 110.000 acessos e a incrível (para mim e para os demais colaboradores) marca de 854 seguidores do blog. Pessoas que, durante estes anos em que ficamos no ar, debateram, expondo suas opiniões, ou simplesmente lendo, refletindo-se e, no que eu chamo de “o mais incrível e lúcido debate”, calando-se.

A morte estava anunciada. Sempre esteve. Ela é, de fato, anunciada no primeiro sopro de vida. Não é surpresa. Não é desagravo. É natural, é a última – mas ainda “é” – parte da vida. Lembremos com felicidade ou tristeza deste que se vai, mas que ainda fica um tempo para que possa receber as últimas homenagens.

Por: Daniel Pinheiro

2 opiniões sobre “Crônica de uma Morte Anunciada: O fim!”

  1. Uma Ágora desfeita. Os poucos que andamos – teimosamente, é bom que se diga – tateando a neblina em busca da luz da verdade, perdemos mais uma referência para os pés. Nesse adensamento das imbecilidades humanas que o viver virtual tem oferecido à frustrante mente coletiva dos dias correntes, já não se ouvirá nem mesmo o inflamar da retórica nesta que é (ou era) uma fortaleza do pensamento livre.

    Deixa-se de alimentar o debate, morre – ainda que não de pronto – o intelecto por inanição. Cala-se a Ágora, vence a ignorância, vence a incerteza da barbárie

    Para o bem e para o mal, com palavra e com silêncio, escrevemos também nós esta crônica mortuária. Por isso, serenos (mas nunca resignados) carreguemos as alças durante o cortejo e, passado o período de luto, que nos reergamos, com ânimo de construir novos espaços e acender novas luzes, em respeito à memoria dos discursos finados.

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