Eu não acreditei!

Debatepronto - Profile 180

Atualizado: 30/03/2014

*(Se você não quiser ler o texto ou minha opinião, clique aqui e assista este vídeo, e veja as considerações sobre Estatística, e a tendência amostral e os problemas técnicos da pesquisa – eu abordei a forma como as questões estão escritas, ele já vai direto no problema técnico da seleção amostral e aplicação da pesquisa).*

Quando ouvi o resultado da pesquisa do IPEA (clique para acessar o relatório), “Tolerância Social à Violência Contra as Mulheres” – disponível para download no site do instituto, confesso que fiquei chocado. Não quanto à pesquisa, ou quanto ao tema. É preciso deixar claro duas posições iniciais:

1) O tema “Violência Contra a Mulher”, pode, deve e PRECISA ser debatido, e com urgência em nossa sociedade – e sob todas as óticas, pois acredito na relevância do debate tanto quanto na possibilidade de ser (re)visto sob todos os olhares, mesmo com alta carga ideológica;
2) Nada melhor que dados para dar suporte a um debate, considerando que os dados são elementos constituintes de uma boa informação.

Dito isto, e voltando à referida pesquisa, me dei ao trabalho de ler o relatório oficial do IPEA, mesmo sabendo que se tratava do SIPS, cuja própria nota da instituição refere: “O Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) é uma pesquisa domiciliar e presencial que visa captar a percepção das famílias acerca das políticas públicas implementadas pelo Estado”  e portanto, saberia o que poderia encontrar.

Havia me chamado atenção os dados – e o alarme dado em sua leitura. Em primeiro momento, pensei em haver um certo exagero nas mídias ou uma leitura errada na divulgação. Estou acostumado a isso. Além de trabalhar há um bom tempo com pesquisa, me dedico particularmente ao estudo de dois fenômenos: o primeiro, e mais comum, a leitura errada e superficial de dados, com recortes irresponsáveis, feitos geralmente por pressa ou por má intenção; o segundo, intencionalmente e igualmente mal recortados para beneficiar alguém, ou gerar algum tipo de movimento (como é o caso, por exemplo, de grandes polêmicas, ou comoção). Mas, como falei, era um primeiro momento, e achei que o tema era muito delicado para qualquer órgão de imprensa ou movimento, que seja, ser suficientemente irresponsável para tratar uma pesquisa desta maneira. Nas redes sociais, na imprensa, proliferava não apenas o espanto, mas comecei a ver que a repercussão era ainda maior.

Fui novamente ao relatório, e nesta noite em que escrevo este artigo, me dei ao trabalho de ler com um pouco mais de atenção. Eu jamais pensaria em desqualificar uma instituição como o IPEA, a quem sou “consumidor” de dados, informações e relatórios desde muito tempo. A minha preocupação, agora, volta-se não ao debate, muito menos à questão em si. Já a qualifiquei anteriormente, e repito, é uma discussão extremamente necessária e urgente em nossa sociedade. Mas qual foi o problema?

O “estouro” originou-se em uma pesquisa completamente equivocada, e se pode dizer, de certa forma irresponsável. Nos anos em que trabalhei com alunos de jornalismo, sempre que podia dizer algo para eles, era que tratasse dados com responsabilidade. Desde a sua coleta.

Na pesquisa do IPEA, as perguntas foram construídas de maneira quase que “inocente”, do ponto de vista de um processo de pesquisa minimamente sério. E isto me preocupa. A seriedade da instituição em tratar praticamente todos os temas que passam em seu debate, não me fariam crer que aquele conjunto de perguntas realmente se referem a uma pesquisa de percepção social.

As questões, em sua maioria, são distorcidas e elaboradas, claramente, sobre um ponto de vista onde qualquer um – e repito – qualquer responderia, isoladamente, para se chegar a um resultado. Sim, são tendenciosas – e não falo no sentido estrito, do tema, mas sim, tendenciosas quanto ao resultado. Qualquer que fosse o grupo de aplicação, qualquer que fosse o recorte, as respostas, para a maioria, seriam em tendência a concordância, pois o texto dispunha para isso.

Volto a repetir que, independentemente do tema, do assunto, ou de qualquer coisa, não estou analisando o mérito de sua discussão, mas exatamente o contrário: como desqualificar um debate. Eu jamais usaria dados frágeis ou informações resultantes de uma pesquisa sem o mínimo teor científico ou respeito a qualquer processo que a qualifique como pesquisa séria para iniciar um debate.

Se isto tudo serviu para alguma coisa, para mim, foi para as lições que tirei abaixo:

1) Nunca mais confio no IPEA. Posso até usar algo, do passado. Não mais, daqui para frente. Uma instituição que permite dar vazão a uma pesquisa cuja preocupação nas questões geram apenas um resultado tendencioso, não importando qual seja a intenção, merece somente sua desqualificação. Fazer isto com um tema tão importante é, no mínimo, irresponsável;

2) Espero que, neste momento, surjam pesquisadores sérios, que mostrem como fazer o trabalho – e o façam. Queria ter dinheiro e estrutura para fazer uma pesquisa séria sobre o tema violência contra a mulher. Não é minha área, mas se fosse, eu não teria a mínima condição estrutural para empreender uma pesquisa séria, com tal volume, para trazer, se bem feita, resultados que fomentem um debate. Antes de começar a escrever eu até tentei listar quais questões não eram tendenciosas, mal escritas, ou sei lá, minimamente aproveitáveis. Não tinha. Parecia um trabalho de colégio, mal feito, daqueles que chamamos de “pesquisa”, mas nos juntamos com os colegas no intervalo antes da aula para fazer, porque esquecemos, e vamos entregar “qualquer porcaria” à professora, que com preguiça, fará vistas grossas.

3) Mas, sim, pesquisa de percepção é minha área. E só pude concluir, depois de ler o referido documento, que: alguém fazer pesquisa de percepção da população sobre um tema de tamanha importância deveria ter, pelo menos, o mínimo cuidado de não fazer perguntas usando apenas do senso comum ou, de linguagem que apenas induzam à concordância daquilo que se queira chegar. Observando tecnicamente as questões (como deve ser feito), sem entrar no mérito do tema, chega a ser ridículo como a grande maioria tem resposta prévia com tendência conhecida e, observadas isoladamente, com texto que incita claramente à resposta. Ademais, é irresponsabilidade e desqualificação do trabalho de pesquisadores sérios. Aliás, para alguns temas, a pesquisa de percepção é a menos indicada, salvo SE muito bem feita para, exatamente, não promover tais erros, na minha opinião, toscos, infantis, ou intencionais (e, a mim, não me interessam os motivos de tal intenção, que fique claro).

4) O tema, em específico, é tão importante para a nossa sociedade e, se tem algo neste trabalho de baixíssima qualidade, irresponsável e de pouca relevância técnica, é que pelo menos movimentou pessoas a debaterem sobre um tema necessário. E isto, sim, é importante.

Espero que isto não afeta a imagem de pesquisadores sérios, e pessoas que dedicam suas vidas ao importante trabalho de pesquisa, o qual, me incluo. Me sinto, de certa forma, envergonhado, por ainda encontrar trabalhos deste tipo.

E que, disto tudo, saiam fortalecidas as mulheres, que lutam contra uma sociedade ainda machista e muitas vezes, hipócrita.

Por fim, apenas deixo claro que resisti, desde o primeiro dia, em ler opiniões de revistas, sites, e apenas li comentários e exposições em redes sociais, de amigos, mas segurando-me para que não entrasse nos links, pois queria antes ler com calma o relatório oficial.

Este foi, sim, um desabafo de um pesquisador. E mesmo depois disto, ainda não acredito no que li.

Daniel Pinheiro

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