Consumismo x Consumerismo: A folha em branco (por: Paulo Rink)

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“Quando nascemos nossas mentes são como folhas em branco”

A frase, atribuída ao grego Aristóteles – 384- 322 a. C. – traz-nos a refletirmos sobre a nossa, moderna, formação inicial. Segundo o filósofo grego “quaisquer ideias que alcançamos só podem ser recebidas por meio dos nossos sentidos. Assim, ao nascer não temos ideias natas e, por conseguinte, não podemos ter noção do que é certo ou errado. No entanto, segundo Aristóteles, quando encontramos exemplos e preenchemos estas folhas aprendemos a reconhecer as qualidades que tais exemplos têm em comum.

A extraordinária definição filosófica de Aristóteles, encontra eco no presente ruidoso pelo qual passa a espécie humana. Na medida que, segundo Protágoras – 490 – 420 a. C. – “o homem é a medida de todas as coisas” fica fácil entender o porquê os profissionais de marketing agem, cada vez mais, nas folhas “vazias” das crianças. Não é por acaso que ao assumir seu pontificado Bento XVI adverte que “estamos caminhando para uma ditadura do relativismo”. Tudo é relativo? Até mesmo a completa aniquilação de nossa casa? Sendo relativo se julga a importância do fato ou não.

É a força do sistema capitalista iniciando, ainda no desabrochar da vida a formação de massa de consumo. Ou seja, a formação de novos consumidores deve se dar, segundo a lógica consumista, ainda no berço. Se as mentes, ainda em branco, das crianças forem aos poucos sendo “preenchida” com o verbo “comprar” fica fácil imaginar a longevidade de um sistema baseado em produção e demanda. Compre batom, Compre batom! “Xuxa, a rainha dos Baixinhos”!

Por este ponto de vista fica quase inerte a ideia de algo que se contraponha a teoria consumista. Nem mesmo as perspectivas apocalípticas de um esgotamento das reservas da terra deve trazer medo aos ávidos consumidores, pelo simples fato que nossas folhas mentais estão preparadas para, somente, o consumo. Afinal, somos egoístas e não precisamos nos preocupar, no momento, com as gerações vindouras. “Não estaremos aqui, mesmo!”

Não é qualquer marolinha que derruba o voraz gigante. A mão invisível, de Adam Smith, agindo em nosso subconsciente. Francisco, ao assumir como papa da igreja católica, ataca o materialismo esdrúxulo e a ganância do consumo, até mesmo dentro de sua organização. “Devemos ser humildes, vendam as Mercedes” Exclamou Vossa Santidade.

Os bombardeios mentais a que somos submetidos, diariamente, e que segundo Engel, Blackwell e Miniard, são estímulos dominados pelos modernos profissionais de marketing como a: exposição, atenção, compreensão, aceitação e retenção fazem parte da memória ou, para Aristóteles, nossas folhas em branco. “O número de crianças pequenas pode diminuir, mas sua importância como consumidores não diminuirá”. Para os pesquisadores – americanos – crianças não assinam cheques mas elas têm uma grande influência nos gastos. Que assim seja! Digamos todos. Amém!

É preciso preenche estas folhas com o que, modernamente, chamamos de “pensamentos enraizados” ou Top Of Mind, ou aquilo, ainda, que Dante Alighieri em a Divina Comédia exclama por: “de luxúria fez tantas demasias que em lei dispôs ser lícito e agradável para desculpas às torpes fantasias”. O Inferno de Dante, se revelando na vida real.

Sócrates – 469 – 399 a. C. arguia que “a vida irrefletida não vale a pena ser vivida” Poderíamos, por analogia, dizer que no mundo consumista a vida sem poder consumir não valeria a pena? Ou ainda, estaríamos vivenciando as novas sombras de Platão refletidas nas modernas cavernas – nossas salas – sob o estigma de ícones consumistas? Os Neymar e as Giseles tornar-se-iam, aquilo que Platão definiu como “forma”? O que faço sem meu Ipod?

E mais. A falta de uma perspectiva futurista, na ecologia, poderia provocar na humanidade o mesmo hiato provocado ao final do século XIX e começo do século XX, na Europa, onde a crise bucólica e a decadência da cultura levou o alemão Nietzsche a declarar a existência de um deus morto?

Mas há esperanças. Encontramos no Africano Aurélio Agostinho – Santo Agostinho – a explicação para o que segundo ele é a origem do mal na terra. Segundo Agostinho, Deus criou tudo menos o mal, logo é de se supor que poderemos vencer a chaga consumista olhar para o planeta azul e não temer pela imolação da raça humana no futuro, conclusão óbvia a que se chega quando analisamos, friamente, o conceito de Aristóteles.

Para Edgar Morin “a humanidade deixou de constituir uma noção apenas biológica e deve ser, ao mesmo tempo, plenamente reconhecida em sua inclusão indissociável na biosfera; a humanidade deixou de constituir uma noção sem raízes: está enraizada em uma “Pátria”, a terra, e a terra é uma pátria em perigo”. […] a humanidade está doravante, pela primeira vez, ameaçada de morte.

Alain Lipietz expõe, com clareza, que a o otimismo está no âmago da humanidade: “de Espártaco a Tracy Chapman é o que Ernest Block chamou, segundo Lipietz, de “princípio esperança”.

Aguardemos.

Paulo Cesar Rink

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