E por falar em comissão da verdade…

Amigos Leitores,

Hoje eu mandei pro Daniel postar no blog um texto de um General que fala de corrupção, comissão da verdade e etc.

A seguir me deparei com o texto a seguir que me foi enviado pelo amigo Coronel Seabra que casualmente trata de assuntos correlatos e por isso eu o encaminhei ato contínuo pro Daniel também postar porque funciona quase que como um complemento do texto anterior só que dessa vez escrito por um articulista totalmente isento, posto que civil e ex comunista.

Interessante ler os dois textos em sequência e refletir sobre a quantas andam nosso sentimento de amor à nossa pátria, seus valores e sua cultura, nosso interesse pela verdadeira história do país e mais importante do que isso tudo, nosso senso crítico sobre toda a informação que recebemos e a partir daí, nossa noção de responsabilidade sobre o que fazer com os ensinamentos apreendidos e de como reproduzi-los.

Um grande abraço a todos e boa leitura.

Raul Avelino.
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MILITARES E A MEMÒRIA NACIONAL

Olavo de Carvalho
Jornalista, Filósofo e Cientista Político.

Como todos os meninos da escola na minha época, eu não podia cantar o Hino Nacional ou prestar um juramento à bandeira sem sentir que estava participando de uma pantomima. Os símbolos do patriotismo, para nós, eram o supra-sumo da babaquice, só igualado pelos ritos da Igreja Católica, também abundantemente ridicularizados e parodiados entre a molecada.

Cresci, entrei no jornalismo e no Partido Comunista, freqüentei rodas de intelectuais. Fui parar longe da atmosfera da minha infância, mas, nesse ponto, o ambiente não mudou em nada: o desprezo, a chacota dos símbolos nacionais eram idênticos entre a gente letrada e a turminha do bairro. Na verdade, eram até piores, porque vinham reforçados pelo prestígio de atitudes cultas e esclarecidas.

Mais tarde, quando conheci os EUA, levei um choque. Tudo aquilo que para nós era uma palhaçada hipócrita os americanos levavam infinitamente a sério. Eles eram sinceramente patriotas, tinham um autêntico sentimento de pertinência, de uma raiz histórica que se prolongava nos frutos do presente, e viam os símbolos nacionais não como um convencionalismo oficial, mas como uma expressão
materializada desse sentimento. E não imaginem que isso tivesse algo a ver com riqueza e bem-estar social. Mesmo pobres e discriminados se sentiam profundamente americanos, orgulhosamente americanos, e, em vez de ter raiva da pátria porque ela os tratava mal, consideravam que os seus problemas eram causados apenas por maus políticos que traíam os ideais americanos. A América não tinha culpa de nada. A América era grande, bela, generosa. A maldade de uns quantos não podia afetar isso em nada

Só dois grupos, neste país, falavam do Brasil no tom afetuoso e confiante com que os americanos falavam da América. O primeiro era o dos imigrantes: russos, húngaros, poloneses, judeus, alemães, romenos. Tinham escapado ao terror e à miséria de uma das grandes tiranias do século (alguns, das duas), e proclamavam, sem sombra de fingimento: “Este é um país abençoado!” Falávamos de miséria, eles respondiam:
“Vocês não sabem o que é miséria”. Falávamos de ditadura, eles riam: “Vocês não sabem o que é ditadura”.

No começo isso me ofendia. “Eles acham que sabem tudo”, dizia com meus botões.Foi preciso que eu estudasse muito, vivesse muito, viajasse muito, para entender que tinha razão. A partir do momento em que entendi isso tornei-me tão esquisito…

Não imaginam o que possa ter sido sonhar com um frango na Rússia, na Alemanha, na Polônia. Elas acreditam que em Cuba os frangos dão em árvores e são propriedade pública.

O outro grupo onde encontrei um patriotismo autêntico foi aquele que, sem conhecê-lo, sem saber nada sobre ele exceto o que ouvia de
seus inimigos, mais temi e abominei durante duas décadas: os militares.

Caí no meio deles por mero acaso, por ocasião de um serviço que me pôs temporariamente de editor de texto de um volumoso tratado:
O Exército na História do Brasil.

A primeira coisa que me impressionou entre os militares foi sua preocupação sincera, quase obsessiva, com os destinos do Brasil. Eles discutiam os problemas brasileiros como quem tivesse em mãos a responsabilidade pessoal de resolvê-los. Quando me ocorreu que nenhum daqueles homens tinha outra expectativa ou possibilidade de ascensão social senão as promoções que automaticamente lhes viriam no quadro de carreira e, no cume das quais, nada mais os esperava senão a metade de um salário de jornalista médio. Eles simplesmente eram patriotas, tinham o amor ao território, ao passado histórico, à identidade cultural, ao patrimônio do país, e consideravam que era do seu dever lutar por essas coisas, mesmo seguros de que nada ganhariam com isso senão antipatias e gozações.

Do mesmo modo, viam os símbolos nacionais – o hino, a bandeira, as armas da República – como condensações materiais dos valores que defendiam e do sentido de vida que tinham escolhido. Eles eram, enfim, “americanos” na sua maneira de amar a pátria sem inibições.

O Brasil nascera na Batalha dos Guararapes, expandira-se e consolidara sua unidade territorial ao sabor de campanhas militares e alcançara pela primeira vez, um sentimento de unidade autoconsciente por ocasião da Guerra do Paraguai, uma onda de entusiasmo
patriótico hoje dificilmente imaginável.

Na sociedade civil, a memória dos feitos históricos perdera-se, dissolvida sob o impacto de revoluções e golpes de Estado, das modernizações desaculturantes, das modas avassaladoras, da imigração, das revoluções psicológicas introduzidas pela mídia.

Só os militares, por força da continuidade imutável das suas instituições e do seu modo de existência, haviam conservado a memória viva da construção nacional. O que para os outros eram datas e nomes em livros didáticos de uma chatice sem par, para eles era a sua própria história, a herança de lutas, sofrimentos e vitórias compartilhadas, o terreno de onde brotava o sentido de suas vidas.

Para os outros isto era uma excitação epidérmica somente renovada por ocasião do carnaval ou de jogos de futebol, era para eles o alimento diário, a consciência permanentemente renovada dos elos entre passado, presente e futuro. Só os militares são patriotas porque só os militares tinham consciência da história da pátria como sua história pessoal.

A sociedade civil, desconjuntada e atomizada, é vulnerável a mutações psicológicas que forçadas por grupos de ambiciosos intelectuais
ativistas apagam do dia para a noite a memória dos acontecimentos históricos e falseiam por completo a sua imagem do passado. De uma geração para outra, os registros desaparecem, o rosto dos personagens é alterado, o sentido todo do conjunto se perde para ser substituído pela fantasia inventada que se adapte melhor aos novos padrões de verossimilhança impostos pela repetição de slogans e frases-feitas.

E aí reflito que toda a diferença entre o que se lê hoje na mídia sobre o regime militar e os fatos existe uma enorme diferença. Até o começo da década de 80, nenhum brasileiro, por mais esquerdista que fosse, ignorava que havia uma revolução comunista em curso, que essa revolução sempre tivera respaldo estratégico e financeiro de Cuba e da URSS. Mesmo o mais hipócrita dos comunistas, discursando em favor da “democracia” sabia perfeitamente a nuance discretamente subentendida nessa palavra, isto é, sabia que não lutava por democracia nenhuma, mas pela implantação de uma ditadura semelhante ao comunismo cubano e soviético, segundo as diretrizes da Conferência Tricontinental de Havana. Passada uma geração tudo isso se apagou. A juventude, hoje, acredita piamente que não havia revolução comunista nenhuma. Que o governo João Goulart era apenas um governo normal eleito constitucionalmente, que os terroristas da década de 70 eram patriotas brasileiros lutando pela liberdade e pela democracia.
No Brasil, a multidão não tem memória própria. Sua vida é muito descontínua, cortada por súbitas mutações modernizadoras, não compensadas por nenhum daqueles fatores de continuidade que preservava a identidade histórica do meio militar. Não há cultura doméstica, tradições nacionais, símbolos de continuidade familiar.

A memória coletiva está inteiramente a mercê de duas forças estranhas: a mídia e o sistema nacional de ensino. Quem dominar esses dois canais mudará o passado, falseará o presente e colocará o povo no rumo de um futuro fictício. Quem lê e estuda a verdadeira história recente desta Nação poderia dar uma contribuição preciosa à reconquista da verdade, roubada da memória brasileira por manipuladores maquiavélicos, oportunistas levianos e tagarelas sem consciência.
Perguntam-me se essa contribuição poderia vir dos militares? Bem, de quem mais poderia vir?

Olavo de Carvalho

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