Contraponto: Francisco vs. Blatter (por: Paulo Rink)

Ao findar a semana da jornada mundial da juventude finda-se o segundo grande evento programado para ocorrer no Brasil em quatro anos. Depois da copa das confederações e da JMJ, restam, ainda, a copa em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Depois da passagem de blatter e sua trupe e do furacão Francisco são possíveis algumas conclusões básicas.

Primeira. Organização.

Fica patente que cada povo possui características diferenciadas uns dos outros.  Não adianta esmurrar a mesa, querer forçar certas condições. Não dá certo. Já está manjado que a organização de grandes eventos não é nossa expertise. Pontualidade, organização e disciplina então…

Querer que o povo brasileiro seja um experts nisso é o mesmo que esperar que a seleção da Tasmânia ganhe uma copa com seus diabos. Pela lei das probabilidades chances existem, mais próximas de zero, é verdade.  Pontualidade e organização impecável em grandes eventos são coisas para alemães, ingleses e suíços.

Nós, vamos no improviso mesmo e seja o que Deus quiser. Como dizem que ele é brasileiro… logo, invariavelmente, algo dá errado, mais no final tudo se ajeita. Se não se ajeitar, como diz um amigo meu, é porque ainda não chegou ao final.

O exemplo mais medonho foi o campo onde Francisco iria celebrar a Missa no domingo. Aterraram, imaginem, um mangue. Na primeira chuva descobriram que ficava impraticável, no mangue, a chegada de alguém. Sorte do Papa.

Segunda. Humildade

Se pecamos na organização mostramos ao mundo que temos mais sorte que juízo. Na chegada, ao Rio, a comitiva do Papa ficou presa num engarrafamento na Avenida Presidente Vargas. Dizem os Vaticanistas que na verdade a comitiva se “perdeu” no caminho. O carro do Papa parado e cercado pela multidão num congestionamento irritou os gringos. O jornal americano, Chicago Post, publicou a seguinte manchete: “perdemos para isso daí?”

Mais aí mostra uma outra face do povo brasileiro. Blatter e sua trupe precisou se esconder nos luxuosos hotéis, da cidade maravilhosa, também precisou transitar em carro blindado e camuflar seus horários.

Francisco, ao contrário, desfilou num carro simples de vidro aberto, apertando a mão do povão, ficou preso num engarrafamento e não reclamou. Se fosse Mister blatter, com certeza, iria chorar as pitangas com os PeTralhas.

Aliás, o carro do Papa merece um adendo especial. O narrador da band. José Luiz Datena chamou por diversas vezes o veículo, Idea, de fiatezinho simples. Imagino como o pessoal do marketing da multinacional italiana deve ter ficado contente com o moço.

No discurso para Dilma, Renan, Cabral e outros o Papa mandou direto. “Não trago ouro e nem prata. Só Jesus Cristo.” Nem pouco falou que o Brasil merecia um pé no traseiro.

Toda este diferencial de tratamento já tinha sido notado em outras ocasiões. Na dolorosa perda do piloto Airton Senna, o povo foi às ruas e chorou a morte do ídolo. Bem diferente do “fora Collor”. Recaí, nesta situação, aquilo que o filósofo Régis Jolivet, compara entre homens bons e maus.

Da mesma forma não foi preciso super arenas para ver Francisco. Também não foram exigidos assentos especiais, banheiros com granito ou coisa similar. O povão ficou na praia mesmo, usou banheiro químico e “desfrutou” do transporte público. Também não se exigiu ingressos caríssimos, as tvs, ou outros parceiros comerciais não tiveram privilégios especiais. Não necessário, também, foi a remoção de milhares de brasileiros de suas casas para a passagem da comitiva do Papa. Ao contrário! Assim, que souberam que o Papa queria visitar uma favela a governança local tratou, logo, de maquiar o lugar.

Como dizem que a mentira tem perna curta, nove dedos e língua presa, um jovem “favelado e ousado” tratou logo de denunciar a maracutaia ao Pontífice. “Santo Papa, nossa comunidade nunca viu tantas máquinas e agentes públicos trabalhando para a comunidade pobre e desfavorecida. Assim, que foi anunciada vossa visita isto tudo se tornou realidade.”

Dizem que as autoridades locais coraram de vergonha e trataram de procurar lixeiras para se esconder Como este é um “benefício” que o Estado não levou ao cidadão local, tiveram que aguentar o tranco firme.

Certamente, Francisco também não ficou sabendo das quatro mortes, ocorridas nas Unidades de saúde 24 hs de Belo Horizonte, por falta de leitos hospitalares. “Faltam 1300 leitos de hospitais em Belo Horizonte” sentenciou o secretário de saúde municipal no bom dia Brasil, da tv globo. Já dinheiro pra reformar o Mineirão!

Terceira. Economia.

Segundo dados, ainda não oficiais, a copa custará ao povo deste país algo em torno de 35 bilhões de reais. Pelas estimativas oficiais o lucro aferido à fifa em dezembro de 2014, data que se encerrará a derrama de isenções fiscais a entidade suíça, será algo em torno de 5 bilhões de reais. É como se cada brasileiro tivesse que pagar R$ 175,00 em impostos para que blatter leve, limpinho, seus bilhões para a Suíça.

Para a JMJ, segundo dados ainda, não oficiais, o custo estimado é de 300 milhões de reais. Consta na prefeitura municipal do Rio, bem como do governo de Sérgio Cabral que a conta do erário será de 100 milhões, os outros 200 milhões seriam de doações. Mas, digamos que os 300 milhões fossem pagos pelo povo brasileiro. A contribuição, em forma de impostos, seria de R$ 1,50 perca pito. Já o retorno…

Pesquisa realizada pela UFF – Universidade Federal Fluminense – coordenada pelo professor Osíris Marques e divulgada no portal globo.com, no domingo, mostra que a JMJ injetou, somente na cidade do Rio De Janeiro 1,8 bilhão de reais na economia da cidade. Segundo o professor o impacto foi 17 vezes superior ao da copa das confederações na cidade.

Quarto. Educação.

Na Missa realizada no domingo para, segundo cálculos extras oficias, três milhões de peregrinos, na praia charmosa de Copacabana, foi anunciada a presença das autoridades civis: Dilma Roussef, Evo Morales, Michel Temer, Cristina Kirchner e outras figurinhas. Nenhuma vaia foi ouvida. Nem tampouco o Pontífice precisou repreender o povo exaltando o Fair Play, ou pedindo educação aos nativos. Já em Brasília…

Quinto contraponto

Em entrevista, estranhamente, exclusiva a TV Globo o Papa não se furtou a temas, segundo os experts, polêmicos. Falou dos escândalos na Cúria Romana, com a mesma naturalidade que tomou um chimarrão na areia carioca. Cobrou duras providências contra a pedofilia, a corrupção e o exibicionismo eclesiástico. Advertiu e exigiu punição ao monsenhor que transportou 20 milhões de euros irregularmente. “Certamente, este monsenhor não contribuiu em nada com a imagem da igreja” Sentenciou Francisco.

Diferente do Papa, mister blatter foge sobre temas espinhosos para a fifa. Esconde, nos cofres bancários suíços, documentos comprometedores sobre Havelange, Teixeira, Jerôme e outros.

Francisco cobra que os extremos – Jovens e idosos – sejam inseridos na sociedade e cobrou, firmemente, o que chamou de “globalização economicista e o culto ao dinheiro e conclamou os jovens a dizer não a estas “correntes”.

Blatter, ao contrário, parece não se importar com tais fenômenos, desde que o lucro seja, claro, para a fifa.

O contraponto, entre as duas personalidades, nunca será definitivo. São, apenas, reflexões. Talvez, Francisco e blatter sejam aquilo que o filósofo francês Régis Jolivet tenha definir como índole boa e má.

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