Lavar as Mãos (Especial: Educação) por Tarsilla Bertoli

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Você professor, tenta melhorar a educação “lavando as mãos”?

Quando conversamos com um professor, principalmente da educação básica, nada mais comum que ouvir lamentações e diagnósticos sobre síndrome do pânico, depressão, calos nas cordas vocais etc. Os professores estão doentes, os alunos desinteressados e o ensino desqualificado.

Concordo com as dificuldades no ensino brasileiro. Ser professor é também atuar como psicólogo, psiquiatra, fonoaudiólogo, pediatra, oftalmologista, terapeuta ocupacional, advogado, entre algumas outras profissões que indiretamente se relacionam com o “lidar com as pessoas”.

Os professores reclamam, são negligenciados, alguns recebem pouco pelo muito que fazem. Em contrapartida, existe uma parcela deles (e não é pequena) que faz desta profissão um “bico”, que descuida de suas atribuições e, consequentemente, recebe muito pelo pouco que faz.

Enquanto o primeiro grupo se engaja, participa, discute e tenta melhorar os rumos da educação; o segundo segue cumprindo sua carga horária e nada mais.

Enquanto o primeiro grupo trabalha com projetos diferenciados em suas aulas; o segundo insiste na tradicional aula expositiva.

Enquanto o primeiro grupo propõe questionamentos que fazem os alunos dialogar e sonhar; o segundo considera os alunos incapazes de argumentar e ter ideias.

Enquanto o primeiro grupo está sempre envolvido com alguma atividade além da sala de aula; o segundo não consegue nem imaginar cumprir meia hora a mais de trabalho.

Enquanto o primeiro grupo conscientiza seus alunos sobre a importância da democracia e do poder que possuímos enquanto sociedade; o segundo grupo não aceita sequer discutir critérios e instrumentos avaliativos com os alunos, afinal, quem tem conhecimento para essas definições é única (e exclusivamente) o professor.

Enquanto alguns professores acreditam em sua profissão e nas alternativas que possuímos enquanto multiplicadores de conhecimento; outros insistem em achar que suas aulas são mera transmissão de conhecimento e não enxergam essa troca como uma construção coletiva e enriquecedora.

Enquanto aquele primeiro grupo (comprometido, envolvido, participativo e atuante) busca alternativas para melhorar suas condições de trabalho e formação; o segundo não é capaz de disponibilizar uma única tarde de folga para participar de discussões sobre o plano de carreira da instituição em que atua. Quem dirá, então, procurar qualificar suas aulas.

É comum ver e ouvir as pessoas dizendo que creches são depósitos de crianças para que os pais trabalhem. O primeiro grupo citado anteriormente adota uma postura firme para quebrar esse paradigma e trabalha para fazer da educação infantil uma etapa fundamental à formação da criança e fazer a sociedade mudar sua concepção. O segundo grupo “lava suas mãos” e insiste em limitar sua prática aos cuidados diários relativos à alimentação e higiene e planejamentos pedagógicos tradicionais que pouco contribuem ao desenvolvimento cognitivo dos pequenos.

No ensino fundamental há uma confusão constante sobre a alfabetização e os conteúdos essenciais a cada um dos ciclos. No ensino médio percebe-se a dificuldade de integração entre as áreas do conhecimento. O primeiro grupo de professores busca articular sua formação continuada com foco nos alunos, pensando em suas necessidades e na realidade em que irá atuar. O segundo grupo leciona isoladamente, cumprindo cronogramas e planos de ensino descontextualizados, fugindo até mesmo da troca de materiais com colegas de áreas afins. Seguem “lavando suas mãos”.

No ensino profissionalizante, além da dificuldade de encontrar profissionais com experiência e formação acadêmica, há que se considerar ainda a incongruência entre teoria e prática dos currículos. Torno a mencionar o primeiro grupo de professores que busca articular sala de aula e campos de estágio, considerando a importância desta relação para a efetiva formação de profissionais capacitados. E o segundo grupo? Aquele que permeia sua prática com as “mãos lavadas” atua no sentido de executar suas atribuições e nada mais. E ainda afirma que os alunos vão aprender com a prática, já que são adolescentes ou adultos, não precisam de tanta orientação.

Será que é possível ser professor sem “sujar as mãos”? Não.

Queres permanecer com as mãos sujas pelo conhecimento, pelo aprendizado e pela troca ou preferes ficar do outro lado da história?

A escolha é sua.

Por Tarsilla Bertoli

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