Wikileaks: A informação enquanto um problema político

Sempre tento convidar alguém para escrever para o Debatepronto. Quanto menos eu o fizer, melhor. O autor deste artigo eu não apenas já o considerava de uma ótima capacidade crítica como, neste texto, demonstra sobriedade e, ao mesmo tempo, a bela capacidade da qual as mentes curiosas são dotadas: abrir um debate.

Eis o seu texto, sóbrio, esclarecedor e, para o leitor que queira, provocativo. Particularmente, estou esperando os próximos textos dele.

Daniel Pinheiro

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Wikileaks – A informação enquanto um problema político

Por: Nicolas Rufino

O início do século atual foi marcado por transformações sociais intensas, principalmente em relação à visão da sociedade sobre as organizações empresariais e do próprio Estado. Podemos exemplificar o ápice deste questionamento coletivo com a criação da mais importante e polêmica obra de Julian Assange – o Wikileaks -, resultando numa maior reflexão acerca este tema, por meio de discussões que envolvem a publicidade de informações governamentais e corporativas.

O Wikileaks é uma organização criada no final do ano de 2006, cuja finalidade é de popularizar o maior conteúdo governamental possível, a fim de conscientizar a população dos atos praticados no âmbito do próprio Estado. Nesse sentido, uma característica importante presente nos textos publicados é a imparcialidade. A organização tem como finalidade a divulgação do maior número de documentos estatais possíveis para o público. No entanto, seus organizadores deixam que o próprio leitor julgue os atos governamentais.

Organizações altamente descentralizadas como o Wikileaks nos permitem refletir que o Estado, cuja principal função é de satisfazer as necessidades coletivas, pode exercer um trabalho totalmente oposto, caso caia em mãos erradas. Dessa forma, é preciso desconstruir a falsa ideia de que todos os indivíduos que participam do Estado estão lá para cumprir sua verdadeira função. Todavia, é bem verdade que a popularização em massa de documentos estatais contribui para a sociedade saber o que os governantes estão fazendo nas instituições. No entanto, é preciso lembrar que há vários casos que necessitam de sigilo, e é nesse ponto que existem críticas ao Wikileaks. Existe uma série de documentos acerca de determinados assuntos que envolvem a segurança do Estado, da sociedade e intimidade de determinados envolvidos. 

É interessante notar que a criação do Wikileaks pode ser encarada enquanto um evento contemporâneo específico capaz de representar a urgência da sociedade civil para obter informações de âmbito público. Nesse sentido, a sociedade passou a compreender uma realidade histórico-social fundamental: as organizações privadas e o próprio Estado estão inseridos dentro de um contexto sócio-político complexo pelo fato de seus serviços influenciarem diretamente na qualidade de vida de toda a população. Tal processo é evidente, inevitável e está altamente conectado com a realidade social que a população vivencia.

O fato de uma organização transnacional ser capaz de intervir em sistemas de segurança dos Estados nacionais é uma forte evidência de que a sociedade civil não está despreparada para atuar em questões políticas. No entanto, será que tais atitudes poderiam ser precedidas de um diálogo pacífico com o Estado para a publicação de determinados documentos que interessam ao público? Talvez o papel de uma sociedade civil politicamente organizada seja justamente essa: cooperar com o Estado para a satisfação das necessidades coletivas, uma vez que o dever de satisfação da sociedade não se limita apenas ao Estado. Não se trata de atacar diretamente o Estado por meio do anonimato. Trata-se de trabalhar juntamente com as organizações estatais, fortalecendo o vínculo que existe entre os órgãos do Estado com a população por meio de programas e iniciativas populares de leis que incentivem mais a publicidade de determinados – e não todos – documentos públicos.

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2 comentários em “Wikileaks: A informação enquanto um problema político”

  1. Excelente texto!
    Pensando sobre o tema… imaginei a sociedade como um adolescente que, de início, age por impulso, com agressividade, com imediatismo. Querem informação porque é seu direito. Querem todas as informações, independente da área e da utilidade. Nem sabem direito o que vão fazer com elas, mas querem. Exigem. Parece, e talvez seja, um movimento contra o Estado, uma rebeldia. Depois de tanto tempo de silêncio e comodismo, estão aprendendo a se posicionar… ainda meio sem jeito.

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