A Horror History: Google Glass

A tecnologia é uma das coisas que mais me chama a atenção, suas possibilidades me fascinam e espero por elas. Mas, tudo tem limite, e a privacidade é uma das coisas que prezo muito. Com alguns amigos, sempre discutimos que o Google sabe muito mais do que quer nos contar, digo sempre que o Google sabe de tudo, mas não quer dizer necessariamente que ele quer que você saiba.

O texto abaixo pode ilustrar isso e nos fazer pensar.

Alison Endler.

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Google Glass: histórias de horror de um futuro sem privacidade

Óculos de realidade aumentada da Google podem ampliar o alcance da empresa do mundo digital para o real, com algumas implicações alarmantes.

Por: Mark Sullivan, PCWorld EUA

Em: 27-07-2012

Pode me chamar de paranóico, mas o Google Glass me dá medo.

A demonstração ao vivo da tecnologia feita por Sergey Brin durante a conferência Google I/O no mês passado mostrou claramente que um computador “para vestir”, sempre ligado e conectado à web é realidade e que funciona. Está sendo desenvolvido por uma das empresas mais ricas no mundo, uma que pode se tornar ainda mais rica se o Google Glass conseguir no mundo real o que o navegador web fez por ela no mundo digital.

Deixe-me explicar: a Google acumulou imenso poder catalogando e analisando a internet, bem como vendendo anúncios por lá. Eles são mestres daquele mundo. Entretanto, como muitas outras empresas de tecnologia, a Google não está satisfeita com uma esfera de influência tão limitada. Ela vem procurando por formas de tratar as coisas no mundo real da mesma forma como trata as do mundo digital, numerando, localizando, mapeando, catalogando e analisando elas. A Google se tornou a gigante que é hoje ao tornar possível as buscas na internet. Será que a empresa espera uma nova “era de ouro” ao tornar possíveis buscas no mundo real?

Algumas empresas tentaram afixar códigos QR (uma variante do código de barras) a objetos, colocando marcadores em itens do mundo real e, dessa forma, dando a eles uma representação no cyberespaço. Tal técnica vem tendo sucesso limitado, mas é só um truque barato de salão perto da poderosa tecnologia conectada à web no Google Glass.

Realidade aumentada, sempre disponível

O Google Glass lembra um par de óculos de leitura, com uma lente estreita que fica ligeiramente acima de um dos olhos. Ela é basicamente um monitor de computador translúcido, e pode sobrepor dados e imagens sobre o campo de visão do usuário, exibindo mensagens de e-mail, vídeo, mapas ou qualquer outra coisa que possa ser transmitida através da web. O Google Glass também incorpora versões miniaturizadas de componentes típicos de um smartphone, como câmeras e microfones, e software como um navegador web e um sistema de reconhecimento de voz.

Por exemplo, um usuário poderia pedir, verbalmente, informações sobre como chegar a um endereço e os óculos irão sobrepor instruções à sua visão, mostrando até mesmo etiquetas de identificação sobre pontos importantes. O potencial é ainda mais assombroso: os óculos poderiam mostrar instruções de como reagir a uma emergência médica, completas com vídeos de demonstração de uma manobra de ressuscitação e um chat em tempo real, em vídeo, com um médico.

Tanta inteligência integrada aos óculos para beneficiar o usuário é algo bom. É a informação que sai dos óculos e chega à web que me preocupa. Como o Google Glass está conectado à internet através de uma conexão de banda larga sem fios, ele poderia facilmente reportar em tempo real tudo o que o usuário está vendo, ouvindo e fazendo.

Na Web o Google se mostrou extremamente habilidoso ao rastrear os movimentos dos usuários com cookies, associados a gigantescos sistemas de análise para prever os gostos e interesses de uma pessoa, bem como a probabilidade de que ela adquira um produto ou serviço. Poderia a empresa usar o Glass como uma plataforma para rastrear e analisar nossos movimentos no mundo real?

Sonho do marketing… e pesadelo do consumidor?

O que impede a Google de rastrear os movimentos de um usuário do Glass para descobrir o que lhe chama a atenção? Ao sair de casa, por exemplo, posso ver um carro que atrai meu interesse. Poderia a tecnologia do Google Glass ser usada para formar um “mapa de calor” das coisas nas quais fixo os olhos? Talvez um dia a tecnologia possa ser usada para medir o quão rápido (e quanto) virei a cabeça para olhar para alguma coisa, e gerar uma “probabilidade de compra” baseada nessa informação. Chamem ela de “Índice do Torcicolo”.

Capturar este tipo de informação é quase um sonho para os profissionais de marketing: uma indicação simples e direta de quais anúncios devem ser mostrados ao consumidor, e quando. E este é um dos “abusos” mais prováveis do Google Glass: o aparelho poderia ser usado para exibir anúncios “contextuais”. Ou seja, o tema seria decidido por objetos em seu campo de visão, ou pelo ambiente geral ao seu redor.

Profissionais de marketing podem até mesmo direcionar estes anúncios com o auxílio de tecnologia de localização. Por exemplo, o Google Glass poderia mostrar um cupom oferecendo um cafezinho grátis quando detectar que você está próximo à cafeteria (usando o GPS) e que você olhou para ela pelo menos duas vezes no caminho.

Vigilância completa

Há também o reconhecimento facial. A tecnologia já é desconcertante o suficiente quando identifica rostos em fotos ou vídeo. Mas se o Google Glass estivesse conectado a um servidor com um sistema de reconhecimento de faces, ele poderia ser feito em tempo real. O usuário poderia, por exemplo, passar os olhos sobre uma multidão e “etiquetas” seriam colocadas sobre as cabeças dos amigos ou amigos de amigos no Google+. Aplicativos para smartphones que fazem isso já existem, mas o Glass tornaria a tecnologia muito mais simples de usar, e mais fácil de usar o tempo todo.

Isto pode não ser um grande problema se apenas algumas poucas pessoas em cada cidade adotarem o Google Glass. Mas e se o aparelho “pegar”, e se tornar um sucesso tão grande quando o iPhone hoje? Todos estes óculos estariam coletando quantidades monstruosas de informação a cada minuto de cada dia, possivelmente transferindo tudo isso através da rede para armazenamento em um vasto banco de servidores. Sim, no século 21 o “Big Brother” vive em um datacenter.

A julgar pelas palavras usadas pela Google em suas políticas de privacidade e termos de uso, os sons e imagens gravados pelo Google Glass não seriam propriedade das pessoas que estão usando os óculos. A Google poderia usar estes sons e imagens da forma como quisesse.

E já que estamos falando de “pior caso”: e se um outro ataque terrorista ainda pior que o 11 de Setembro acontecesse? Algo envolvendo armas químicas ou biológicas, e perpetrado por pessoas vivendo entre nós?

Nossos níveis de ansiedade iriam novamente às alturas, governos poderiam adotar novas e ainda mais agressivas políticas de vigilância, e uma população em pânico poderia se dispor a abrir mão de grande parte de sua privacidade em troca de um pouco mais de segurança e paz de espírito. Os governos poderiam então se dar novos poderes para acessar a informação coletada por produtos e serviços como o Google Glass, com a justificativa de que isso é necessário para “pegar os bandidos”. Não há ferramenta de vigilância melhor do que um monte de pessoas que andam por aí gravando tudo o que vêem e ouvem, o tempo todo.

Não é “mal”, mas…

Claro, estes são cenários de horror que podem nunca se realizar. Empresas de internet como a Google parecem ter uma dose saudável de medo de ultrapassar limites e gerar um escândalo de privacidade que poderia prejudicar seu faturamento.

Mas o Google Glass pode deixar o gênio sair da garrafa. Mesmo que a Google não tenha nenhuma intenção de usar os óculos para nada mais do que entreter e informar os usuários, sua mera existêntica em meio à pilha de dados coletados em tempo real pode causar problemas no futuro.

Embora a Google possa decidir não fazer nenhum mal com o aparelho, uma empresa menor, mais pobre e mais desesperada pode. Por exemplo, se a Google se recusar a ativar o Glass como uma ferramenta para reconhecimento de faces em tempo real, ou como uma ferramenta para publicidade, uma outra empresa pode ver nisso imensas oportunidades de mercado.

A resposta não é banir nem desprezar a tecnologia. Algumas das coisas que o Google Glass é capaz de fazer são sem dúvida legais e úteis. Mas as empresas de tecnologia às vezes se esquecem da máxima que diz que só porque você pode inventar alguma coisa, isso não significa que você deva transformá-la em um produto e lançá-la ao mundo.

No final das contas, fica sob nossa responsabilidade a tarefa de reconhecer produtos potencialmente perigosos e que possam ferir nossa privacidade, e deixar bem claro para seus fabricantes que eles foram longe demais.

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