Trabalhadores Fantasmas ou Fantasmas Trabalhadores?

Trabalhadores fantasmas, a saga da indústria do pó na Região Metropolitana de Curitiba
Carlos Kiatkoski

Fonte: O Estado do Paraná

O cenário lembra mais um filme de ficção científica, de longe uma
fumaça sobe ao sabor do vento e as luzes amareladas dão um ar sépia à
paisagem encravada nos morros da região. A estrada é a artéria
principal para o desenvolvimento de Curitiba. Por seu trajeto passam
os minérios que erguem e estruturaram a capital.

Não é preciso rodar muito para se ver estas paisagens, distantes
poucos minutos do centro da capital. A peregrinação de pessoas é
intensa. Pessoas que de tão acostumadas não percebem mais as grandes
estruturas erguidas a poucos metros da estrada. Estruturas que passam
despercebidas aos olhos dos mais desatentos, assim como os que ali
trabalham. Os operários da indústria do pó.

Os municípios de Almirante Tamandaré, Itaperuçu e Rio Branco do Sul,
na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), são os principais
produtores da cal. O óxido de cálcio, uma das substancias mais
importantes para a indústria.  Mas ao que tudo indica os responsáveis
por sua transformação de minério em produto não são. À medida que se
avança em direção a Rio Branco do Sul a paisagem é transformada,
árvores e casas são cobertas por um manto branco, proveniente das
empresas próximas.

O acesso não é um dos melhores, não existe asfalto nas entradas de
carga. O chão é batido e escorregadio. Em um primeiro momento o
amontoado de pedras branco amareladas dão o sinal de que ali o
ambiente não é o dos mais saudáveis para se estar. O prédio que de
longe parecia encravado no morro, não passa de uma estrutura frágil.

As escadas de acesso aos andares superiores são estreitas, o corrimão
não passa de um bambu, meramente ilustrativo, não é seguro apoiar-se.
Assim como o guarda corpo de todos os andares.

Ao entrar na fábrica branca a pessoa é envolvida por uma densa nuvem
de poeira, e é possível sentir, literalmente, na pele os efeitos
nocivos da cal. A garganta resseca, as partes expostas do corpo são
cobertas pela poeira. A sensação é de ter passado o dia limpando uma
casa completamente empoeirada. A sensação de segurança ficou para traz
há muito tempo, as estruturas ali não são propriamente adequadas.

Cobertos de pó

Uma figura solitária inserida na paisagem artificial observa todos os
movimentos de longe. Desconfiada e arredia. Ao se aproximar,
identifica-se um homem de meia idade, o físico já não é mais o de um
garoto. Tão pouco o aspecto, já desgastado pelo trabalho braçal de 12
horas seguidas. E ele está apenas no começo da jornada.

O trabalho é intenso, os fornos devem ser alimentados com serragem, em
alguns lugares o combustível é madeira nativa e cal a todo o momento.
Nas grandes empresas da região, dois trabalhadores são responsáveis
por alimentar os fornos. Em média são quatro fornos em operação. Não
se pode parar um minuto. As mãos calejadas seguram um cigarro, talvez
um dos poucos momentos de prazer em uma madrugada. “São trinta e cinco
carrinhos todos os dias filho”, conta o operário empoeirado.

A longa jornada e as condições de trabalho cobram um preço alto. A
pele sempre apresenta uma cicatriz de queimadura, seja pelo calor dos
fornos (usados para queimar o calcário) ou pela própria cal. As pedras
que não derretem dentro dos fornos devem ser carregadas novamente para
a esteira que abastece a fornalha.

Equipamentos de segurança chegam a ser piada. Máscara, luvas, capacete
e óculos de proteção são trocados por um boné surrado, uma camisa
velha e a pele maltratada pelo tempo. “Acostuma, com o tempo você não
sente mais nada”, repete o trabalhador.

Os fornos lembram, e muito, castelos medievais. Alimentados por
serragem são eles que transformam o calcário em cal. Mas para que isso
ocorra, é necessário que um homem controle toda a operação, desde a
quantidade de serragem a de matéria-prima. Dentro dessas fornalhas, as
pedras derretem e explodem.

Caso estas empresas parem, toda a estrutura pode sofrer.
Principalmente o carro chefe da economia nacional. A construção civil.

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