Ouro Negro: escravidão no Vale do Ribeira?

Ouro negro, a servidão dos excluídos do Vale do Ribeira
Carlos Kiatkoski
Fonte: O Estado do Paraná

Afastado poucos quilômetros de Curitiba é possível encontrar uma tribo
diferente da que se está acostumado a ver na televisão. Sempre
pintados, os guerreiros desta tribo estão em uma luta constante contra
a fome e a miséria. Os guerreiros nem sempre são os mais fortes da
tribo, tão pouco os mais aptos, e quase sempre não são homens. Os
exércitos formados por esses guerreiros muitas vezes conta com
mulheres e crianças nos fronts de batalha.

As aldeias são compostas de casebres feitos de restos de madeira,
lascas de Pinus. Restos do progresso que os cercam. A paisagem é
tomada por reflorestamento de madeira, principalmente o Pinus. O
trânsito intenso de caminhões mostra qual é a principal fonte de renda
da região do Vale do Ribeira. A extração de madeira.

Estradas cortadas em morros e forradas por cascalho é a ligação
principal com os fornos de barro e tijolo onde são queimados galhos e
troncos. O carvão que abastece as churrasqueiras e embalam as festas
vem destas pequenas fábricas de carvão. Os fornos lembram muito
grandes cupinzeiros, a única diferença é a fumaça que sai deles e o
cheiro de madeira queimada que toma conta das clareiras onde estão
inseridos.

O trabalho degradante e pesado é tocado em um ritmo constante. Não há
tempo a perder, os ganhos são calculados pela produção do dia. A cada
carga de forno o trabalhador recebe R$ 10,00. Abastecer e desabastecer
um forno garante um ganho maior, R$ 15,00 por empreitada. Um forno
leva ao menos um dia de trabalho para ser abastecido completamente, o
mesmo tempo para retirar o carvão.

A marcha destes guerreiros começa logo ao amanhecer, quando levantam
em meio à penumbra do início do dia e se deslocam por caminhos
tortuosos para as frentes de trabalho. Às sete da manhã tem início a
jornada de oito horas de trabalho. Faça chuva ou faça sol, estes
guerreiros preparam o carvão que irá alimentar a festa de alguém.

Algumas famílias sobrevivem apenas com os ganhos gerados pela produção
e comércio do carvão. A região do Vale do Ribeira tem baixíssimo
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o trabalho é escasso, os que
não trabalham em carvoarias tem como renda a agricultura familiar. Uma
história de trabalho braçal que remete à infância.

O número de carvoarias já não é mesmo de tempos atrás. Isso devido às
intensas fiscalizações do Ministério Público do Trabalho (MPT), que em
2008 fechou e multou muitas carvoarias por trabalho infantil e
escravo. Mas a realidade é que muitas migraram cada vez mais para
dentro do Vale do Ribeira.

As legalizadas sofrem com a queda das vendas no mercado e com a
concorrência das carvoarias clandestinas. A desconfiança dos moradores
da região é grande ao se falar a respeito do assunto. Muitos têm medo
do que possa vir a acontecer, alguns proprietários não tem escrúpulos
para manter o negócio e muitas vezes estes têm ligação com a polícia
ou com políticos da região. A madeira que queima dia e noite nos
fornos é retirada do que restou de mata nativa na região. Os fornos
queimam basicamente Bracatinga.

Para poder vender o carvão, as carvoarias clandestinas negociam a
produção com as empresas legalizadas. O carvão clandestino entra como
parte da produção e torna-se legal. A fiscalização desconhece estes
novos fornos, uma vez que se encontram em locais de difícil acesso.

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