Tá lá o corpo… (por Daniel Pinheiro)

De Frente Pro Crime

(João Bosco)

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém…

O bar mais perto
Depressa lotou
Malandro junto
Com trabalhador
Um homem subiu
Na mesa do bar
E fez discurso
Prá vereador…

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então…

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém…

Sem pressa foi cada um
Pro seu lado
Pensando numa mulher
Ou no time
Olhei o corpo no chão
E fechei
Minha janela
De frente pro crime…

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então…(2x)

Tá lá o corpo
Estendido no chão…

Não podia me ausentar das provocações do Raul Avelino e do Amarildo Esteves. Apesar de não ser tão preciso nos fatos históricos, a minha intenção é partir para um outro lado da questão da liberdade. Talvez, como não poderia deixar de ser, ainda me atenha a uma questão muito pontual – e pessoal – sobre o assunto. Vamos em frente…

Alguns dias antes de eu escrever este post, comentava sobre a isenção dos impostos dos tablets, alegando que deveríamos (ou poderíamos, ao menos) ter outras prioridades, como reduzir a tributação sobre alimentos, por exemplo. Creio que a ideia não foi das melhores, afinal, precisamos mesmo de tablets. E que seus usuários venham a este blog, ao menos! De fato, todos temos o direito, ou melhor, todos imaginam que temos o direito ao livre acesso ao conteúdo gerado na internet. Outro fato é que esta ideia pode – eu disse, pode – ser verdadeira, se considerarmos que liberdade é uma via de mão dupla.

Imaginem que agora eu parei com o assunto, e entre um gole de café e outro, eu decida olhar o corpo estendido no chão…

É, você, ao ler este artigo, deve imaginar a mesma coisa que eu: o que esse imbecil quer? Não diz nada com nada? E a resposta é a mais ilustrativa que eu possa dar: eu tenho o direito, de neste blog, escrever o que eu quiser DESDE que o que eu escreva não invada o direito do outro, a privacidade do outro, levante mentiras ou afirmações caluniosas, etc e tal… tenho o direito a usar qualquer figura de linguagem, DESDE que não agrida a ninguém, não incomode a quem quer que seja, etc e tal… Enfim, eu tenho direito a tudo, desde que não o perca para quem tem o direito a tudo. A liberdade é assim: te possibilita ir a todos os lugares, ou a lugar nenhum, a depender do seu ponto de vista. E talvez seja aí que eu vá chegar!

Uma sociedade que se poste em cima dos pilares do consumo e do individualismo JAMAIS conseguirá achar um ideal de liberdade verdadeiramente literal, ou pelo menos, o ideal que gostaríamos quando sonhamos com a liberdade. Chega a ultapassar o sentido filosófico e ser utópica a noção que temos de liberdade. Não é estranho que o consumo de drogas – o quão agressivas possam ser – seja tão alto. Que jovens busquem a autorrealização no álcool ou no cigarro, na violência desmedida. Aliás, não é nada estranho e, ao contrário, é explicável.

Como disse, não era isso que o Raul e o Amarildo falavam de liberdade. Ou talvez fosse. Porque o que aprendemos no convívio em sociedade, por incrível que pareça, é fruto da posição que o Estado assume frente ao seu povo. Temos lutado por democracia, mas sem ter aprendido o que ela é, de fato. Quando muito, tenho ouvido nas ruas que democracia é uma forma de governo…

Somos capazes, sim, de pensar em liberdade. Mas se a tratarmos com o descaso que estamos tratando, será ela mais um corpo estendido no chão, no meio de uma multidão apressada, que não consegue ver a si própria. Quem dirá, enxergar a necessidade de um semelhante, ou respeitar sua própria morte.

Daniel Pinheiro

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2 opiniões sobre “Tá lá o corpo… (por Daniel Pinheiro)”

  1. Creio que por diferentes leituras convergimos para o mesmo sentido de liberdade. Talvez tenhamos situado a liberdade em épocas diferentes da história do Brasil e da nossa história pessoal. O mais importante de tudo isso é que haja discussao e espero que os leitores do blog deem sua contribuiçao nao só lendo mas também comentando ou postando suas opinioes sejam elas favoráveis ou contrárias porque entendo que é esta a alma do blog: gerar a discussao,formar opiniao sem ser parcial e ao mesmo respeitando o posicionamento de cada um. Discordo de muitas coisas que leio no blog,mas também sei que muitas pessoas divergem daquilo que posto em meus posts. Essa é a vida do blog calcada no seu nome: debatepronto.

  2. Mais uma vez o Amarildo foi pontual e o Daniel como sempre sagaz.
    Quando eu postei e comentei o texto que trata a questão da liberdade, procurei justamente fazer um gancho com a polêmica da homofobia – afinal a opção sexual de cada um é uma questão eminentemente (e por que não dizer exclusivamente?) de liberdade escolha – e direcionar a reflexão com base em uma evolução histórica – cujo cerceamento da liberdade está intrínseco nos acontecimentos das décadas de 60 e 70 – para melhor entendermos como é que pouco a pouco fomos conquistando espaços e ao mesmo tempo, administrando tão mal estas conquistas ao ponto de chegarmos ao que temos hoje, como eu já disse em outra ocasião, uma sociedade, racista, preconceituosa, desonesta e egoísta.
    Sinto-me satisfeito, pois vejo que atingi meu objetivo. Melhor que isso só se mais leitores contribuírem para o debate, assim, DE BATE PRONTO para um PRONTO DEBATE.

    Raul.

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