Apesar de Você (por Amarildo Esteves)

Apesar De Você
(Chico Buarque – 1970)
Intérprete: Chico Buarque
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.
Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.
Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.
E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc. e tal
Com o autor previamente identificado acima, cito entre outras tantas, uma das canções daqueles que de uma maneira ou outra, se expressaram contra o regime militar vigente entre os anos de 1964 e 1985. Alguns achavam que pegar em armas seria a maneira de derrotar o sistema então vigente, outros compunham canções, encenavam peças de teatro, enfim, tentavam demonstrar o seu descontentamento com o que estava acontecendo na época.

O Raul Avelino, justificando o seu comentário, falou de sua formação militar. E eu respeito seu ponto de vista, embora discorde de muitas coisas que ele defende. Já tivemos a oportunidade de debater por várias vezes nossos posicionamentos políticos que são antagônicos. É bem verdade que isso jamais contribuiu para que tivéssemos qualquer atrito em nossa amizade. Pelo contrário, discutíamos, e cada qual colocava o seu ponto de vista e isso tudo regado a latinhas de budweiser e pão frances (ou cacetinho?) com mortadela bologna e jamais deixemos que os extremismos ideológicos fossem maiores que nossa razão em relação ao assunto então proposto.

Pois bem! É notório que durante o período do golpe militar (e entendo como golpe porque apearam do poder um governo eleito democraticamente e, portanto, legítimo) houve excessos de ambos os lados, ou seja, do lado dos militares e do lado dos que se opunham a eles. Na questão política o pretexto para a tomada do poder pelos militares se deu com a tentativa de “sovietizaçao” do Brasil, onde, segundo os milicos, os comunistas estariam prontos para derrubar o então Presidente João Goulart, que segundo os próprios militares, apoiava os chamados subversivos. Universidades, sindicatos, escolas, professores, trabalhadores ou quem quer que seja pessoa ou instituição que se opusse ao governo imposto era tido como subversiva e sofria as devidas retaliações.

Entendo que a falta de liberdade na época da justiça militar era notória. Muitos adeptos do regime militar entendem que era o único meio de impedir os comunistas de chegarem ao poder. Mas devemos lembrar que a ditadura perseguia qualquer pessoa que fosse contra o regime, independente de ser esta pessoa comunista ou alguém que pegasse em armas para lutar contra os militares. Atos institucionais, Serviço Nacional de Informação, DOPS eram as muletas que o governo se amparava para controlar o país. Doesse a quem doesse.

Na gestão do Presidente Médici (1969/1974), gaúcho de Bagé (cidade considerada Área de Segurança Nacional por ser fronteira e por possuir 5 quartéis) a ditadura mostrou-se mais ferrenha ainda suprimindo vários direitos constitucionais dos cidadãos.

Citando Bagé, minha cidade, lembro de um senhor que trabalhava no Banco do Brasil e foi afastado do seu emprego porque pertencia ao PCB (Partido Comunista Brasileiro). Este bancário teve de arrumar outras formas de trabalhar para sustentar sua família entre outros como fotógrafo. Ficou 15 anos afastado do banco porque representava um perigo para a sociedade. Mais tarde, após o fim da ditadura, foi reintegrado ao seu posto e com o devido ressarcimento de anos sem exercer sua profissão e sem receber salários.
Hoje tentam confundir a falta de liberdade de então com a violência atual em todo o país. Por acaso não ocorriam assaltos, seqüestros, homicídios, tráfico de drogas nos idos de 1964 a 1985? Ocorriam. “Só que o governo só se preocupava em fazer a sua propaganda enaltecendo o regime com hinos do tipo “Pra Frente Brasil” e adesivos “Brasil” Ame ou deixe-o”, embriagava o povo até com a vitória da seleção brasileira de futebol, como se esta fosse criada pelos militares, embora eles tenham tentado intervir até na escalação e ouviram um sonoro não do então treinador João Saldanha. Aliás,até no futebol os militares meteram a colher ao colocar o almirante Heleno Nunes como presidente da CBF e o capitão Claudio Coutinho como preparador físico e, logo após,na Copa do Mundo de 1978,como treinador da seleção.

No campo econômico surgiu o tal de milagre econômico onde os recursos vinham principalmente do exterior e contribuíram em muito para aumentar a dívida externa brasileira. O então ministro Delfim Neto, responsável pela Fazenda, entre outras coisas, congelou os salários, aumentou e muito as tarifas públicas e cunhou uma frase famosa onde dizia que primeiro era esperar o bolo crescer para depois dividi-lo. O bolo cresceu vertiginosamente, mas a divisão nunca ocorreu. O então ministro deu muitos incentivos fiscais para empresas que exportavam nossos produtos e também para aquelas do exterior que investiam no Brasil. Em contrapartida, as empresas beneficiadas teriam de investir seus ganhos no país através de geração de empregos e preços competitivos. Esta contrapartida nunca foi executada. E com essa via de mão única, o que aconteceu com a economia brasileira qualquer pessoa que seja um pouco esclarecida sabe. O aumento da dívida externa, desemprego, arrocho salarial (que já fazia parte do programa da Fazenda como requisito para o crescimento) mostrou para os brasileiros e ao mundo que o país que se orgulhava de ser a oitava economia do mundo contraditoriamente tinha os piores índices de distribuição de renda. Nesta época, o Brasil construiu – ou começou a construir – grandes obras como a usina Itaipu Binacional, a Transamazônica (onde até hoje a maior parte da rodovia não é pavimentada), a ponte Rio – Niterói e outras que (pelo seu tamanho e pela corrupção contida na briga para ganhar as licitações) receberam o nome de faraônicas.

A liberdade que muitos falam passa pela forma política como é conduzido um país, pela forma econômica que se administra este país e principalmente pelas pessoas – que de forma direta ou indireta – escolhem ou apóiam seus governantes.

Amarildo Esteves

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Uma consideração sobre “Apesar de Você (por Amarildo Esteves)”

  1. Pô Amarildo, que saudade me deu daqueles nossos animados papos regados a budweiser e pão com mortadela, lá se vão bem uns 10 anos e é mesmo verdade, sempre debatemos o bom debate e aprendemos um pouco mais um coma as idéias e conhecimentos do outro.
    Como você bem observou o governo dos militares cometeu sim alguns enganos e injustiças e nem de longe conseguiu erradicar da nossa cultura o péssimo hábito da corrupção. Porém, como eu bem observei no início das minhas considerações, todo e qualuer governo comete erros e acertos, alguns mais outros menos e com o governo dos militares não foi diferente.
    O que me conforta e saber que nunca tivemos um Médici, um Geisel, Um Figueiredo ou um Castelo Branco que tenha, lícita ou ilícitamente, ficado milionário, o mesmo não se pode dizer dessa turba que hoje nos (des)governa e descarada e ilícitamente nada de braçada.
    Havia corrupção? Claro que havia, e praticada em sua imensa maioria por autoridades civis que traziam o ranço das administrações anteriores e é bem provável que com a conivência em muitos casos de alguns militares “la plata habla”, porém, quando descobertos eram exemplarmente punidos e mais uma vez, não podemos dizer o mesmo hoje em dia. Havia assaltos a bancos, sequestros e toda uma sorte de mal feitos? Claro que sim e muitos deles arquitetados pela gangue dos que hoje são Ministros, Deputados, Senadores, Lideres Sindicais e até Presidente da República.
    Mas, se formos seguir defendendo nossos pontos de vista divergentes discutiremos à exaustão e não chegaremos à lugar algum, pois temos cada um de nós, nossas próprias convicções.
    O governo militar com seus erros e acertos passou e como eu também observei em minhas considerações não deve voltar mais, pois não é essa a sua vocação tampouco sua missão e eu até acho que por não serem do ramo fizeram um ótimo trabalho.
    Que vivemos um descaramento total no que tange a roubalheira e a corrupção de tudo e de todos em todas as esferas do poder também é inquestionável e acho que devemos concentrar nossas energias em entender a que se deve tal fenômeno, para talvez conseguirmos encontrar uma solução, que na minha opinião necessariamente passa pela educação e pelo esclarecimento.
    E ao chegarmos a esta conclusão, nao há como deixarmos de questionar os limites da liberdade que não tínhamos e agora tomamos com voracidade tamanha que princípios morais e éticos são ignorados solenemente e então seguimos, porque agora somos livres, a idolatrar falsos heróis, admiriar a ignorãncia, a valorizar a bandidagem, a justificar a desonestidade, a seguir e dar maus exemplos e o que é pior, a considerar toda essa decadência algo absolutamente normal.
    Você tem razão meu amigo, construimos nas urnas eleitorais a nossa liberdade e eu acrescento, dali colhemos aquilo que plantamos, 2012 tá aí.

    Um grande abraço,

    Raul Avelino.

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