Como eu ia dizendo 2… (por Amarildo Esteves)

A hipocrisia impera solta quando o assunto é homofobia e racismo. Vou me ater ao racismo até porque, sendo eu negro, cujo avô materno era filho de escravos e escravo tambem o era porque se via obrigado a viver ali junto com os seus pais querendo ou não, já que o escravizador só dava duas opções ao escravizado: ou fica comigo ou mando meus capangas te darem uma “tunda”. Como a negrada não tinha outra opção melhor o jeito era ficar, porque ali na senzala instalada na fazenda, bem ou mal – mais mal do que bem – dormiam e comiam. Muitos escravos fugiam e não tinham para onde ir e/ou tentar uma vida nova com moradia e emprego dois requisitos básicos para a sua sobrevivencia e de seus familiares e amigos.
Conta a História que no século XIX devido ao grande número de índios e negros na formacão da populacão brasileira, decidiu-se por trazer alemães, italianos em maior número e em anos posteriores portugueses, pololones, árabes, libaneses. Diz-se que os europeus já vieram para o nosso País com a promessa de terrenos e empregos para si e suas famílias.
Fiz esse pequeno intróito para que algumas coisas fiquem “claras”. Senão vejamos:

1) É certo e sabido que os negros chegaram em terras tupiniquins como escravos,obviamente sem direito a escolher moradia ou local para trabalhar.
2) Os negros – assim como os índios – tinham e têm a pecha de preguiçosos. Essa denominação (ou seria preconceito?) surgiu ainda nas fazendas onde os proprietários além de alimentarem mal os escravos, exigiam mais e mais produção nas suas lides diárias. Muitos nao conseguiam atingir a meta atingida e eram açoitados no tronco colocado em frente a fazenda e sob a vista de seus companheiros de escravidão para que estes tomasse conhecimento do que acontecia com quem nao cumpria com as ordens do patrão.
3) Aqui no Maranhão tem uma lenda sobre comer manga e leite. Não pode. Faz mal. Depois fiquei sabendo que esse “mal” foi criado ainda na época da escravidão onde os escravizadores não se importavam com a quantidade de mangas que os escravos comiam, afinal de contas, era só apanhar na mangueira e meter o beiço. Mas tomar leite junto com manga nem pensar. O leite já fazia com que o proprietário tivesse que dispender recursos para comprar, manter a vaca no campo, alimentá-la, etc.
4) Eu, sou a favor das cotas para negros – não só para negros – mas neste caso específico em que trata o post do Raul. Conheço pessoas, inclusive uma sobrinha minha que entrou na universidade através de cotas e era uma das melhores alunas da turma. Hoje faz pós em Higiene Publica (dentro da área de sua formação academica que é Ciencias Biológicas) e está indo muito bem no curso. Entendo o sistema de cotas nao como um fim, mas um meio para tornar iguais os desiguais que sao muitos neste País. Em determinado tempo as cotas não mais serão necessárias.
5) Sou gaúcho, tive a oportunidade de viver e conviver em grandes cidades e capitais deste País. Dizer que nunca sofri algum tipo de preconceito seria o mesmo que renegar minhas origens. Eis algumas situações:
No Brasil, se alguém nega um emprego para o negro, ou este não tem os requisitos exigidos para o cargo ou a vaga acabou de ser preenchida. Já passei por isso.
Dentro de um ônibus urbano se uma pessoa branca vê um negro sentado, dá uma olhada para o banco mais próximo que esteja vago. Já passei por isso.
Um branco com que você fala ao telefone e promete uma visita no seu local de trabalho, quando chega aperta a mão de seu colega (branco) e o chama pelo seu nome. Já passei por isso também. Duro mesmo é no ambiente de trabalho onde um colega seu arruma uma discussão com um negro e o chama de macaco e por aí vai. E depois lhe pede desculpas, dizendo que não tem nada contra negros, só estava com raiva de seu colega negro. Já passei e passo por isso.

Aprendemos a ser preconceituosos desde que começamos a entender as coisas. Tem gente (?) que chama o negro de preconceituoso porque este comprou uma boneca negra para sua filha ou boneco negro para o filho. O esteréotipo de beleza no Brasil (um país miscigenado até o ultimo fio de cabelo) é a loira, a mulher com cabelos lisos,conceitos estes importados dos europeus. Pra variar.

A história a seguir tem mais de 18 anos. Certa vez fui visitar um engenheiro, colega de empresa e este apresentou sua filhinha (adotiva – pois nao podiam ter filhos) e me fez o seguinte comentário – vem mais vezes aqui em casa, minha filha não está acostumada com pessoas negras, não quero que ela seja preconceituosa, pois a cidade que moramos raramente se encontra uma pessoa negra.

Outra vez fomos convidados ( eu e outro colega negro) para uma festa chamada Baile do Chope em uma cidade gaúcha fundada por italianos. Este amigo não queria ir porque disse que todo mundo iria ficar o tempo todo olhando só para nós já que, obviamente, o clube era frequentado em sua maioria por pessoas brancas. Eu disse a ele que só não entraríamos se fossemos barrados na porta. Resolvemos ir. Chegamos lá. Realmente ficaram nos olhando, mas depois de alguns chopes e danças com as meninas já estávamos nos sentindo em casa. Voltamos outras vezes e sempre fomos bem recebidos.

Muitas vezes,o negro cria nele um complexo de inferioridade por ter vivido ou ouvido falar de alguns casos que expus acima. Neste país há grandes diferenças sociais no que se refere a raça, classe social, regiao do país. O Maranhão, assim como toda a regiao nordeste, é tido como estado atrasado e vagabundo. Atrasado, no caso do Maranhão, concordo. E este atraso se deve nao a fatores climáticos ou porque “Deus quer” como muito dizem. O atraso se deve a oligarquias políticas (o nome é até repetitivo, mas é isso mesmo – oligarquias políticas) que dominam o estado há mais de 50 anos e aqueles que ajudam esta gente a se manter no poder.

Num estado a inexistência de  indústrias, as 2 estações do ano que se dividem em dois semestre sendo verão (época de seca) e inverno (época de chuva), e outros muitos fatores que se colocam como puxadores para trás da economia não dá pra taxar seu povo de vagabundo. Aliás nenhum estado brasileiro “merece” este rótulo. Ja caímos aí, mais uma vez senão num ato de racismo num grande xenofobismo.

Talvez – e foi de propósito – desfoquei um pouco da linha de raciocínio do Raul. Mas quis colocar coisas do dia-a-dia que deixam bem claro que assim como fizemos piadas com gordos, magros, carecas, loiras, gaúchos, etc., etc.,  nós negros sofremos na pele essa grande hipocrisia de dizer que no Brasil o racismo não existe. Existem casos como este contra o jogador do Cruzeiro, as palavras do deputado Bolsonaro tão homófobicas e racistas quanto o seu direitismo, nos fazem pensar que este Brasil vai demorar muito a mudar.

Estamos fazendo a nossa parte ao proporcionar o debate.

Participe.

Um abraço negro!

Amarildo Esteves

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Uma opinião sobre “Como eu ia dizendo 2… (por Amarildo Esteves)”

  1. fico mui orgulhoso pois trabalhamos juntos e constituimos boa amizade , seique sua cor nao foi escolha sua mais nem por isso lhe tornou menos inteligente, ter um amigo igual a vc nao e preciso olhar a cor

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