Como eu ia dizendo… (por Raul Avelino)

Como eu ia dizendo…

Ô HIPÓCRITA, É TÔ FALANDO COM VOCÊ!

Amigos Leitores,

Conforme anunciado, ou ameaçado, segue o que eu disse que ia escrever sobre racismo e homofobia, ainda um texto escrito em comemoração ao acesso 50 mil do blog.

Assim como tal do bulim (eu abrasileirei o termo) o racismo e a homofobia estão em alta e voltaram à tela dos debates acalorados com a participação desastrosa do Deputado Jair Bolsonaro no CQC (adoro quando ele senta o sarrafo nas viúvas do Che Guevara e nos vagabundos ex-terroristas que ganham pensões milionárias pagas por nós contribuintes, mas acho que ele deveria limitar-se a isso porque quando invade outras searas via de regra é uma catástrofe) e das manifestações ofensivas (?) da torcida do Cruzeiro contra o jogador de vôlei homossexual. Como a questão do homossexualismo teve mais repercussão e na sua esteira é que veio a baila o racismo, é ao quesito boiolagem que darei maior atenção.

Muito legal e muito bacana se pregar o fim do racismo e da homofobia e a construção de uma sociedade melhor, mais justa e humana, mas cá pra nós, o que de realmente prático nesse sentido você está fazendo?

Nós, e uso aqui o pronome na primeira pessoal do plural não referindo-me a mim e a você e a mais alguém especificamente, mas sim, o faço pra me referir a nós como sociedade em geral e generalizo mesmo porque não quero tratar das exceções que no caso em tela são raríssimas. Então, nós, continuando o raciocínio, somos hipócritas, porque condenamos o Bolsonaro que trocando em miúdos disse que viadagem é falta de porrada mas, escondemos nosso próprio preconceito quando somos convocados a nos manifestar a respeito e sempre temos uma posição politicamente correta decoradinha pra expor nosso ponto vista e que não reflete nossa real posição. Se não, vejamos; qual é o pai que não faz planos pro futuro do filho independente de suas aptidões e anseios? E qual pai quando faz esse planos imagina “ah meu filho vai estudar medicina, vai ser um astro do futebol, vai ser veado e vai casar com um decorador de interiores e me encher de orgulho quando sair de destaque na passeata gay?

Vamos deixar de hipocrisia, a pimenta só não arde quando é no olho alheio! Tudo bem que depois de recebida a notícia de que seu filho  ou filha tem uma opção sexual diferente alguns pais absorvem o golpe e passam a encarar a situação com naturalidade e respeito, afinal trata-se de um ser humano como qualquer outro, nem melhor nem pior, mas apenas diferente. Contudo, essa não é a regra é a exceção, eu tenho um casal (?)de amigos gays que me disseram que sair do armário pra sociedade foi bico, dose mesmo foi encarar a família, ou seja, ninguém deseja isso pra um filho, embora todos desejemos que nossos filhos sejam felizes, então quando se nos é revelada a condição em questão, vemo-nos diante de um dilema, o que é melhor, ter um filho infeliz que finge ser o que não é, ou um filho feliz que assuma a sua condição apesar dos pesares?

Não adianta querer bancar o bacanão, o liberalzão, o cabeça feita, homossexualismo pra nós ainda é um tabu e ver duas bibas se pegando no ponto de ônibus não parece normal aos nossos olhos caretas!

Eu sou assim e você também é e não fique envergonhado de ser sincero, envergonhe-se sim de fazer tipo e envergonhe-se mais ainda de não respeitar o que você não conhece ou o que lhe é diferente. Aí chego em um ponto bem interessante que gostaria de destacar, aceitar isso ou aquilo, ninguém é obrigado a aceitar, porém, respeitar é sim um dever de qualquer um que se proponha a viver em sociedade, ainda mais numa sociedade dinâmica e com usos e costumes em constante mutação.

Portanto, pra que não reste nenhuma dúvida com relação ao meu posicionamento frente a questão do homossexualismo, quero deixar claro que eu não acho normal, não faz parte do meu entendimento e da minha formação, sou atrasado em relação a isso e me sinto bem assim, porque apesar desse meu posicionamento convivo bem com quem discorda  e não os trato de maneira diferente desde que evidentemente também me respeitem. Ah sim, com certeza algum sujeito genial deve estar se perguntando: “E se um filho seu lhe revelasse que é homossexual?” Ao contrário do deputado casca grossa eu não vou responder a isso de maneira ofensiva, eu simplesmente digo que não sei qual seria minha reação e não tenho a menor idéia de como passaria a ser a minha relação com este filho ou  filha, eu tenho um casal, a partir de então, simplesmente não sei, provavelmente acabaria aceitando de alguma forma, mas não sem dor isto é certo, porque pra mim continuaria sendo uma coisa que não faz parte do meu universo.

E o racismo? Guardadas as devidas proporções é exatamente a mesma situação, somos todos racistas sim! Reforço que estou generalizando porque aqui também as exceções são raríssimas e eu gostaria muito que o meu amigo pessoal e colaborador do DEBATEPRONTO Amarildo Esteves me ajudasse nesse ponto, porque eu sou preto mas sou vira latas, na verdade sou mulato, meio preto e meio branco, mas o Amarildo, salvo melhor juízo é negão mesmo e além disso é gaúcho…rarararara… O riso aqui é proposital porque sempre nos contaram piadas de preto e pra ele ainda as de gaúcho e nem por isso nos sentimos diminuídos ou discriminados, rebatemos contando piadas de português, argentino, gordinho, bichinha, loira, etc… e no final tudo acaba bem, porque apesar da gozação e da sacanagem saudáveis, impera sempre o respeito e admiração pelo ser humano, pela pessoa, seja preto, veado, gordo, argentino… Opa, peraí! Argentino não, aí já é ser politicamente correto demais… rarararara…

Puto mesmo eu fico quando sei que um negro ocupando uma mesma posição profissional que um branco recebe um salário menor sem nenhuma razão que o justifique, puto eu fico quando sei que uma loira, só por ser loira recebe algum tipo de pré julgamento em relação à sua capacidade, puto mesmo eu fico quando uma gordinha é preterida numa vaga de emprego porque uma gostosona as vezes até menos qualificada assume a vaga só por estar mais adequada aos padrões impostos de beleza. Entenderam? É da coisa prática que eu to falando.

E aí eu pergunto, quantos dos senhores já se apaixonou por uma gorda? E mais, quem dos senhores sequer deu uma chance pra gordinha, pra conhecê-la melhor e avaliar seus outros atributos e virtudes?

Salvo as raríssimas exceções, somos todos preconceituosos sim e além disso hipócritas, pois quando vemos alguém ser simplesmente sincero queremos crucificá-lo! Notem bem, eu reforço, que gostar disso ou daquilo ninguém é obrigado, mas respeitar sim! Por isso eu acho que a livre opinião é sempre válida, cada um tem o direito de dizer o que pensa, porém sem ser ofensivo ou desrespeitoso, ta entendendo onde eu quero chegar senhor Deputado? Puto mesmo eu fiquei quando o senhor disse que não voaria em avião pilotado por um cotista, eu não me sinto discriminado quando me contam uma piada de preto ou me chamam de negão, queria o quê, que me chamassem de japonês? Eu me sinto discriminado quando um representante do povo eleito e pago pelo povo diz que não se deixaria operar por um médico cotista! É por essas e outras que eu defendo cota pra pobre e não pra preto! E não me venham com essa papo de afro descendente, porra que babaquice, polaco então é o que, euro descendente?

Em resumo caríssimos leitores, o que eu to querendo dizer é que não é atirando pedras à esmo que iremos mudar as coisas, se pretendemos deixar um mundo melhor e uma sociedade mais justa e igualitária para os que virão, precisamos mudar nossas atitudes e nossa maneira de ver as coisas, acho que foi o Dalai Lama que disse que as crianças aprendem muito mais com os olhos do que com os ouvidos, ou seja, devemos ter o cuidado de educar nossos filhos muito mais com bom exemplos do que com bons discursos. Se eu digo que racismo é feio, não é uma coisa legal, mas torço o nariz pra namoradinha negra que o meu filho me apresenta, pronto, o meu discurso acabou de ir por água abaixo e o que fica é o exemplo que eu dei.  Não existe essa do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

Que direito eu tenho de cobrar honestidade no Congresso, se eu fico com o troco a mais que por engano me foi dado na padaria? Como eu posso criticar o dólar na cueca se eu deixo a cervejinha pro policial rodoviário me aliviar uma multa? Somos todos frutos do meio, até o políticos escroques!

É minha gente, somos uma sociedade preconceituosa, machista, racista, desonesta, egoísta e hipócrita. Mas, pra nosso consolo, o vizinho é bem pior!

Um grande abraço a todos,

Raul Avelino

Uma opinião sobre “Como eu ia dizendo… (por Raul Avelino)”

  1. A hipocrisia impera solta quando o assunto é homofobia e racismo. Vou me ater ao racismo até porque,sendo eu negro,cujo avo materno era filho de escravos e escravo tambem o era porque se via obrigado a viver ali junto com os seus pais querendo ou nao já que o escravizador só dava duas opçoes ao escravizado:ou fica comigo ou mando meus capangas te darem uma “tunda”. Como a negrada nao tinha outra opçao melhor o jeito era ficar,porque ali na senzala instalada na fazenda,bem ou mal – mais mal do que bem – dormiam e comiam. Muitos escravos fugiam e nao tinham para onde ir e/ou tentar uma vida nova com moradia e emprego dois requisitos básicos para a sua sobrevivencia e de seus familiares e amigos.
    Conta a História que no século XIX devido ao grande numero de indios e negros na formacao da populacao brasileira,decidiu-se por trazer alemaes,italianos em maior numero e em anos posteriores portugueses,pololones,arabes,libaneses. Diz-se que os europeus já vieram para o nosso País com a promessa de terrenos e empregos para si e suas famílias.
    Fiz esse pequeno intróito para que algumas coisas fiquem “claras”. Senão vejamos:

    1)
    É certo e sabido que os negros chegaram em terras tupiniquins como escravos,obviamente sem direito a escolher moradia ou local para trabalhar.
    2)
    Os negros – assim como os índios – tinham e têm a pecha de preguiçosos. Essa denominaçao (ou seria preconceito? surgiu ainda nas fazendas onde os proprietários além de alimentarem mal os escravos,exigiam mais e mais produçao nas suas lides diárias. Muitos nao conseguiam atingir a meta atingida e eram açoitados no tronco colocado em frente a fazenda e sob a vista de seus companheiros de escravidao para que estes tomasse conhecimento do que acontecia com quem nao cumpria com as ordens do patrao.
    3)
    Aqui no Maranhao tem uma lenda sobre comer manga e leite. Nao pode. Faz mal. Depois fiquei sabendo que esse “mal” foi criado ainda na época da escravidao onde os escravizadores nao se importavam com a quantidade de mangas que os escravos comiam,afinal de contas,era só apanhar na mangueira e meter o beiço. Mas tomar leite junto com manga nem pensar. O leite já fazia com que o proprietário tivesse que dispender recursos para comprar, manter a vaca no campo,alimentá-la,etc.
    4)
    Eu,sou a favor das cotas para negros – não só para negros – mas neste caso específico em que trata o post do Raul. Conheço pessoas,inclusive uma sobrinha minha que entrou na universidade através de cotas e era uma das melhores alunas da turma. Hoje faz pós em Higiene Publica (dentro da area de sua formaçao academica que é Ciencias Biológicas) e está indo muito bem no curso. Entendo o sistema de cotas nao como um fim,mas um meio para tornar iguais os desiguais que sao muitos neste País. Em determinado tempo as cotas nao mais serão necessárias.
    5)
    Sou gaucho,tive a oportunidade de viver e conviver em grandes cidades e capitais deste País. Dizer que nunca sofri algum tipo de preconceito seria o mesmo que renegar minhas origens. Eis algumas situaçoes:
    No Brasil,se alguem nega um emprego para o negro,ou este nao tem os requisitos exigidos para o cargo ou a vaga acabou de ser preenchida. Já passei por isso.
    Dentro de um onibus urbano se uma pessoa branca ve um negro sentado,dá uma olhada para o banco mais próximo que esteja vago. Já passei por isso.
    Um branco com que voce fala ao telefone e promete uma visita no seu local de trabalho,quando chega aperta a mao de seu colega (branco) e o chama pelo seu nome. Já passei por isso também.
    Duro mesmo é no ambiente de trabalho onde um colega seu arruma uma discussão com um negro e o chama de macaco e por aí vai. E depois lhe pede desculpas,dizendo que nao tem nada contra negros,só estava com raiva de seu colega negro. Já passei e passo por isso.
    Aprendemos a ser preconceituosos desde que começamos a entender as coisas. Tem gente (?) que chama o negro de preconceituoso porque este comprou uma boneca negra para sua filha ou boneco negro para o filho. O esteréotipo de beleza no Brasil (um país miscigenado até o ultimo fio de cabelo) é a loira,a mulher com cabelos lisos,conceitos estes importados dos europeus. Pra variar.
    A história a seguir tem mais de 18 anos. Certa vez fui visitar um engenheiro,colega de empresa e este apresentou sua filhinha (adotiva – pois nao podiam ter filhos) e me fez o seguinte comentário – vem mais vezes aqui em casa,minha filha não está acostumada com pessoas negras,nao quero que ela seja preconceituosa,pois a cidade que moramos raramente se encontra uma pessoa negra.
    Outra vez fomos convidados ( eu e outro colega negro) para uma festa chamada Baile do Chope em uma cidade gaucha fundada por italianos. Este amigo nao queria ir porque disse que todo mundo iria ficar o tempo todo olhando só para nós já que,obviamente,o clube era frequentado em sua maioria por pessoas brancas. Eu disse a ele que só nao entraríamos se fossemos barrados na porta. Resolvemos ir. Chegamos lá. Realmente ficaram nos olhando,mas depois de alguns chopes e danças com as meninas já estávamos nos sentindo em casa. Voltamos outras vezes e sempre fomos bem recebidos.
    Muitas vezes,o negro cria nele um complexo de inferioridade por ter vivido ou ouvido falar de alguns casos que expus acima.
    Neste país há grandes diferenças sociais no que se refere a raça,classe social,regiao do país. O Maranhao,assim como a regiao nordeste sao tidos como estados atrasados e vagabundos. Atrasado,no caso do Maranhao,concordo. E este atraso se deve nao a fatores climáticos ou porque “Deus quer” como muito dizem. O atraso se deve a oligarquias políticas (o nome é até repetitivo,mas é isso mesmo – oligarquias politicas) que dominam o estado há mais de 50 anos e aqueles que ajudam esta gente a se manter no poder.
    Num estado a inexistencia de industrias,as 2 estacoes do ano que se dividem em dois semestre sendo verao (época de seca) e inverno (época de chuva),e outros muitos fatores que se colocam como puxadores para trás da economia nao dá pra taxar seu povo de vagabundo. Aliás nenhum estado brasileiro “merece” este rótulo. Ja caímos aí,mas uma vez senao num ato de racismo num grande xenofobismo.
    Talvez – e foi de propósito – desfoquei um pouco da linha de raciocínio do Raul. Mas quis colocar coisas do dia-a-dia que deixam bem claro que assim como fizemos piadas com gordos,magros,carecas,loiras,gauchos,etc.etc. nós negros sofremos na pele essa grande hipocrisia de dizer que no Brasil o racismo nao existe. Existe e casos como este contra o jogador do Cruzeiro,as palavras do deputado Bolsonaro tão homófobicas e racistas quanto o seu direitismo,nos fazem pensar que este Brasil vai demorar muito a mudar.
    Estamos fazendo a nossa parte ao proporcionar o debate.

    Participe.

    Um abraço negro!

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