ATENTADO NO RIO DE JANEIRO: Era da estupidez! (por Paulo Rink)

O aterrador episódio ocorrido numa escola no Rio de Janeiro, expõe de forma dramática os limites da capacidade e da racionalidade humana.. O assassinato de crianças inocentes, reféns de uma sociedade tresloucada, perdida em seus valores éticos e moral, desnuda de todo princípio básico de seres civilizados. Será que somos mesmos civilizados?

Vivemos na era da estupidez? Sim! Somos estúpidos. Nossas crianças convivem com verdadeiras masmorras a qual singelamente denominamos “ESCOLA PÚBLICA”. São prédios imundos jogados as traças. Porcos, bois e frangos, que compõe nossa alimentação, convivem, em muitos casos, em melhores instalações que muitas de nossas crianças. Marginais fazem plantão nas portas das instituições escolares oferecendo seu “precioso” produto e arregimentando futuros clientes. Nossa indignação…

Nossos professores, valentes profissionais, convivem com uma vergonhosa remuneração, propiciados por um Estado demente, cruel, corrupto e que em muito tem de culpa no trágico episódio. Estes profissionais guardiões do conhecimento convivem com estruturas obsoletas, inúteis sem qualquer sentido lógico e racional pra quem deseja propiciar uma boa educação.

Nossa cultura, cada vez mais globalizada, segue a moda de violência imposta por culturas dominantes e amplamente difundidas pelos meios de comunicação. Achamos “chiques”. Até mesmo os outrora e ingênuos desenhos animados hoje são fontes de violência com guerras, dominações e sempre um herói pronto a combater o vilão e salvar o mundo.

Não faltarão os inflamados discursos políticos em poses televisivas. Provavelmente, muitos chegarão às lágrimas. Os discursos não salvaram a vida dos pequenos brasileiros.

Mas, o mesmo político que chora a morte destes pequenos brasileiros é o que subfatura obra, libera dinheiro pra construção e reforma de estádios particulares, engordam seus salários na calada da noite, contratam servidores fantasmas e colocam o país em aventurosos projetos esportivos pra atender organizações corruptas, seus financiadores e uma rede imunda de verdadeiras sanguessugas dos impostos pagos pelo povo. Já a educação, a saúde e o bem estar do ser humano… é secundário.

A alma do povo brasileiro está triste. Ao sepultar nossas crianças, vítimas indefesas da bestialidade humana têm-se a terrível sensação de sepultarmos um pouco dos nossos sonhos, das nossas esperanças e de nosso futuro na compreensão do que seria uma sociedade mais humana. A tragédia, desses pequenos brasileiros, nos traz a dura  realidade do que se tornou a convivência humana, naquilo que denominamos de sociedade contemporânea.

Pagamos uma das maiores taxas de impostos no mundo para recebermos em troca nossos filhos em caixões, vítimas de um assassino. Mas também vítimas do descaso público, da corrupção generalizada, da conduta meliante de servidores e da nossa própria capacidade de indignação.

No futebol não é diferente. Perdemos a capacidade de aceitar nossos oponentes. Perdemos a capacidade de diálogo, da boa e velha brincadeira saudável, do sarro de segunda-feira, perdemos a oportunidade de fazermos novas amizades, de aprender com nossos “rivais”. Somos estúpidos.

Uma pessoa com a camisa de nosso adversário se torna um inimigo mortal, alvo a ser abatido, nossa estupidez chega ao absurdo de não podermos usar uma roupa qualquer com as cores do adversário. Sacrilégio mortal! Descarrega-se a raiva nos bens públicos, ônibus, terminais, trens, carros, vidas. Nada escapa da cólera coletiva e individual.

Um jogo de futebol se transforma numa guerra, vidas se perdem, bens são depredados. Assim, como o ocorrido na escola carioca, filhos voltam em caixões, voltam os discursos televisivos, o falatório inútil e bestial. Passam se alguns dias e voltamos a nossa estúpida rotina.

Uma pergunta se faz necessária. E quanto aos sonhos de Ana Carolina Pacheco da Silva, Bianca Rocha Tavares,Géssica Guedes Pereira, Igor Moraes da Silva, Karine Chagas de Oliveira, Larissa dos Santos Atanázio, Laryssa Silva Martins, Luiza Paula da Silveira, Mariana Rocha de Souza, Milena dos Santos Nascimento, Rafael Pereira da Silva, Samira Pires Ribeiro, e seus pais?

Também publicado em: http://www.vozdocoxa.com.br/

 Paulo Rink

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Uma consideração sobre “ATENTADO NO RIO DE JANEIRO: Era da estupidez! (por Paulo Rink)”

  1. O texto abaixo não é meu mas sim da Adriana que há muitos anos está a frente do Projeto Não Violencia….ela é um exemplo de luta para uma Cultura de Paz…quem quiser conhecer o projeto acesse http://www.naoviolencia.org.br

    “Este texto se propõe a gerar reflexões, e se baseia em suposições de um caso que precisa ser amplamente investigado e para o qual poucas informações confirmadas se têm até o momento. Não busca explicações simplistas no calor do momento, e repudia preconceitos midiatizados que reforçam uma cultura do terror.

    A tragédia sem precedentes no Brasil deixa a todos perplexos. Tamanha violência interrompendo caminhos, estraçalhando famílias. Diante de tanta tristeza, muitas perguntas, algumas reflexões, silêncio. É necessário o silêncio, em memória das vítimas e a fim de que os possíveis apontamentos de novos rumos sejam tomados sabiamente. No momento da dor e da revolta, decisões tomadas nem sempre são as mais efetivas. É preciso calma para se buscar a paz e a justiça.

    Uma necessária lembrança: ao pensarmos no local da tragédia, o que houve é uma exceção. As escolas no Brasil enfrentam inúmeros problemas, sim, e para estes problemas há muito o que se possa fazer. Mas há que se cuidar com o pânico gerado num momento como este para que medidas tomadas não sejam imediatistas e pautadas no medo e insegurança. Quando acuados, movidos pelo medo, podemos não atentar para aspectos cruciais.

    O local da tragédia suscita a questão: como educação e violência se entrelaçam? Um ambiente de crianças e adolescentes que deveria ser, a priori, tomado por momentos de descobertas, curiosidades, conhecimento, alegrias, amizade, companheirismo… A escola como um lugar de busca de conhecimento produzido pela humanidade e compartilhado para as novas gerações, e, num processo que se retroalimenta, a produção de novos conhecimentos. A escola como um espaço para o exercício da cidadania em sua mais plena forma. E para alcançar este objetivo, esta instituição deve ser acolhedora, inclusiva, segura.

    A escola é também ambiente onde inúmeras relações humanas se constituem e, como em qualquer ambiente social, essas relações experienciam os mais diversos sentidos. E é um dos ambientes mais propícios para que se dê o aprendizado de valores que norteiam uma sociedade pacífica como o respeito, a ética, a justiça. Mas como se constrói esta sociedade pacífica? Como se dá o aprendizado destes valores?

    Buscando-se referências, exemplos, modelos. Esta é uma das principais formas de aprendermos a conviver em sociedade. As crianças e jovens estão sempre se espelhando nos adultos a sua volta. Responsáveis pela educação por meio de ensinamentos e, principalmente, de atitudes é, para nós, pais, mães, educadores, policiais, políticos, autoridades, que devemos direcionar o nosso olhar. Estamos sendo referência a estes jovens de exemplos éticos, primamos pelo diálogo, buscamos a justiça e trabalhamos em prol do bem comum ou valorizamos nossos próprios interesses, priorizando o prazer imediato e bem estar individual? Estamos sendo pacíficos em nosso cotidiano, com aqueles com quem nos relacionamos, ou muitas vezes agimos de forma violenta por meio da omissão, humilhação, discriminação, palavras duras, ou até mesmo a rejeição?

    Em tempo: esta tragédia poderia ter sido evitada? Se olharmos para o jovem agressor, as informações apontadas em sua direção traduzem uma realidade de alguém com problemas psicológicos e relacionais. Um jovem que pouco falava e quase não tinha amigos. E que teve acesso a armas e munição. De todos estes aspectos, em quais deles é realmente possível intervir? Ações que promovam o diálogo, a amizade, a inclusão, a afetividade, a identificação são sempre eficazes no sentido de prevenir violências e fortalecer comportamentos pacíficos e tais ações tem sido tomadas e podem ser fortalecidas nas instituições escolares. O fácil acesso a armas e munição no Brasil mostra a deficiência de nossas políticas de segurança pública.

    A experiência que tenho tido ao longo de 10 anos com as mais diversas escolas de Curitiba e região metropolitana, acompanhando as pesquisas produzidas no Brasil e no mundo na área da violência escolar, mostra para mim que há muito o que se pode fazer na construção da paz por intermédio das escolas. Entendendo que a paz não exclui o conflito das relações humanas; que o conflito, enquanto divergência é norteador de uma cultura heterônoma e faz parte de um ambiente pacífico; entendendo que a paz não é ausência de atitude, e sim, exige ações efetivas e contundentes; entendendo que crianças, adolescentes, jovens e porque não, também nós os adultos, estamos ávidos por referências pacíficas que nos norteiem num processo educativo que nos indique como viver neste mundo tão desafiador, concluo que é urgente e necessário que cada um de nós se perceba agentes na construção desta Cultura da Paz. ”

    Adriana Araújo Bini
    Coordenadora Técnica
    Projeto Não-Violência

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