ULTRAMARATONA, ESSA MODA AINDA VAI PEGAR! (Esporte e Saúde)

Amigos Leitores,

Como vocês já sabem, o esporte que eu pratico é a corrida, mais especificamente as provas “endurance” de longa distância ou ultramaratona.

Em uma edição passada do DEBATEPRONTO, após tanta gente me perguntar como era correr uma maratona eu escrevi aqui um relato da a minha participação na Maratona de Foz do Iguaçu, mas, maratona é maratona e ultra é ultra e então as pessoas passaram a me perguntar que maluquice é essa de correr mais do que uma maratona que tem 42,195 km e atenção, só é maratona se tiver essa distancia, mais do que isso é ultramaratona e menos é corrida simplesmente, portanto, não existe a maratona de São Silvestre, existe sim a corrida, pois a famosa São Silvestre tem apenas 15km.

Desta vez para ajudar aos amigos a melhor entender esse universo eu conto com a ajuda de uma das mais completas matérias feitas sobre a BRAZIL135, uma das três ultramaratonas mais difíceis do mundo, da qual eu participei em 2009 como “pacer”, atleta que não está inscrito na prova, mas corre nos trechos mais difíceis junto com um atleta que está na disputa, para apoiá-lo, incentivá-lo e ajudar na manutenção do seu ritmo na prova, em 2010 como atleta correndo os 217km em trio de revezamento e agora em 2011 correndo em dupla, tudo isso como parte da minha preparação para 2012 quando pretendo correr solo as 135 milhas da prova.

Nesta edição de 2011, uma equipe de jornalistas do IG Saúde acompanhou os atletas durante todo o percurso e durante as 60 horas de prova e o resultado foi a produção dessa excelente matéria que agora compartilho com os amigos para que ,elhor entendam o que é uma ultramaratona extrema e quem sabe não se juntem a nós futuramente.

Um grande abraço a todos, boa leitura e BORACORRÊ,

Raul Avelino.

(Endereço com a matéria completa e FOTOS: http://digi.to/cXMgA)

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O que acontece no corpo e na cabeça de um ultramaratonista?

Acompanhamos a Ultramaratona BR135 atrás das respostas de quem correu 217 quilômetros

Fonte: Yara Achôa, de São João da Boa Vista (SP), especial para o iG | 31/01/2011 10:58

A corrida muda a vida de muita gente. Alguns começam no esporte como uma evolução da caminhada ou para melhorar a qualidade de vida. Há ainda quem seja atraído pela superação de limites, pelos desafios. Geralmente iniciam com alguns metros, passam para um quilômetro, depois dois, cinco, dez… O progresso na distância e a mistura desses objetivos são naturais e logo fazem de você um corredor.

Foi assim com o empresário Mário Lacerda, 53 anos. Caminhante de longa data – já havia feito trilhas de peregrinação como o Caminho de Santiago de Compostela (na Espanha) e outros do gênero, como o Caminho da Fé (no Brasil) –, Lacerda se viu fascinado por uma corrida a partir de uma reportagem na televisão e resolveu dar alguns passos além. Só não imaginava que iria tão longe.

Na época Lacerda morava nos Estados Unidos e a corrida em questão era a ultramaratona Badwater: competição com 217 quilômetros disputados no deserto do Vale da Morte (EUA), considerada uma das mais duras do mundo, já que os atletas enfrentam temperaturas que chegam a 55º C e altitudes de até 3900m. Colocou na cabeça que iria participar da prova. “Até então eu não corria, só era bom em caminhada. Mas comecei a treinar. Corria meia milha, voltava meia milha. Passei a correr uma milha, depois voltar mais uma. Aos poucos fui avançando”, conta.

Resultado: Mário Lacerda virou ultramaratonista. Participou da Badwater em 2005 (quando, por inexperiência, não conseguiu concluir a prova, pois a sola de seu tênis derreteu no deserto) e 2006. E inspirado pelo desafio vencido, tatuou a altimetria da prova na panturrilha esquerda e decidiu criar uma versão verde e amarela da corrida.

Assim nascia a Brazil 135 (ou BR135): a maior e mais difícil prova do Brasil, também com distância de 217 quilômetros, realizada na Serra da Mantiqueira, entre as cidades de São João da Boa Vista (SP) e Paraisópolis (MG), trecho mais difícil do Caminho da Fé.

De 21 a 23 de janeiro, a reportagem do iG Saúde acompanhou as 60 horas (tempo limite para a conclusão da prova) da sexta edição da BR. A ideia foi tentar entender o que se passa na cabeça, no corpo – e literalmente no coração – desses atletas que embora tenham fisionomias de homens e mulheres comuns, são ultraresistentes como os heróis.

Gente como a gente

A BR é uma prova única: difícil, sem dúvida, mas transformadora também. E reúne pessoas como o técnico de segurança José Servello, 62 anos, de Santo André (SP), recordista em participações na competição. “Quando eu era garoto, meu pai dizia: ‘corre, se não a fome te pega’. Comecei e não parei mais”, conta.

Mas Servello corre também dos médicos, com receio de que eles possam desestimulá-lo a continuar no esporte – dado o grande esforço que uma ultramaratona exige. ”Só vou ao ortopedista quando tenho de tratar alguma lesão”, diz. Mas e o coração? “Coração? Eu tenho isso?”, devolve, divertindo-se.

Em contrapartida, a reportagem encontrou o médico e ultramaratonista João Gabbardo, 55 anos, superintendente do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal. Além de ter o check-up em dia, ele faz parte do grupo de pesquisa da médica Núbia Vieira, que avalia o coração de atletas de endurance. E resolveu acompanhar a jornada do corredor, registrando suas dores e emoções ao longo do caminho.

Preparo psicológico e apoio

Ainda na véspera da largada, durante o Congresso Técnico da BR135, entre informações para os atletas e explicações de logísticas para equipes de apoio, nossa equipe conversou com outros corredores que começaram a dar pistas de como enfrentar aquela “loucura”.

“Em uma prova como essa, o preparo psicológico é tão importante quanto o físico. Eu chego a fazer treinos de oito horas sozinha para me acostumar”, disse Débora Simas, 39 anos, gerente de uma lanchonete em Florianópolis. Ela, que é um dos grandes nomes da ultramaratona no Brasil, era a favorita entre as mulheres (e confirmou seu favoritismo, concluindo a BR135 em 33h49m).

Em meio aos brasileiros, também havia estrangeiros de países como Argentina, Austrália, Canadá, Costa Rica, Espanha, Estados Unidos e Reino Unido.

Os americanos Anthony Portera, 39 anos, advogado; Chris Roman, 41 anos, médico; e Jarom Thurstom, 36, analista de sistemas, vieram dos Estados Unidos para fazer o Caminho da Fé e encaixaram a BR135 na programação para tornar a jornada mais emocionante.

Para Chris, experiente corredor, o maior desafio em provas de endurance é mental. “Bolhas, dores musculares, câimbra, cansaço, calor… Tudo faz você querer desistir. A cabeça é que faz continuar”. Como profissional da área médica, assim como nosso personagem João Gabbardo, ele diz que conhece bem os danos que uma prova como essa provoca ao corpo. E brinca: “Isso não parece ser muito esperto”.

Palavras de incentivo e apoio de amigos e familiares costumam agir como o maior dos repositores energéticos. A mulher de Chris, por exemplo, enviou uma pequena mensagem que emocionou e deu um incentivo extra a ele. “Vá, viva, sofra e cresça”, dizia o bilhete. “Isso me faz sentir vivo”, contou o médico americano.

Dores e delícias

A BR135 não é uma prova para qualquer um. Este ano, inscreveram-se 71 corredores; 57 estavam alinhados na largada; mas apenas 40 chegaram ao final.

Ao longo de 217 quilômetros muita coisa acontece: de hipertermia, desidratação e bolhas até alucinações e uma inesperada mordida de cachorro.

Além de preparo físico e determinação, esses ultramaratonistas têm algo que impressiona quem está de fora: um imenso sorriso no rosto que escancara a alegria da superação de limites. A tatuagem na perna do vencedor da BR135 deste ano, Kurt Lindermueller, alemão naturalizado costa-riquenho, de 50 anos, que completou a prova em 28h19m, parece resumir o espírito da coisa: “nunca vou me render”.

Ao falar de grandes distâncias, eles sorriem e minimizam as dificuldades. Chegam felizes, emocionados, cada um com sua motivação pessoal e sua história. Como se fazer mais de 200 quilômetros fosse ir ali, na esquina.

O médico e o monstro

João Gabbardo, superintendente do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, mostrou seu lado fera na Ultra BR135

Fora do hospital, doutor João Gabbardo se transforma na fera das ultramaratonas

Corredor há 30 anos, o médico gaúcho João Gabbardo, 55 anos, tomou gosto pelas ultramaratonas e desde 2005 faz várias delas.

Por conta disso acabou como “objeto de estudo” no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF), no qual é superintendente. A pesquisa é coordenada pela diretora médica da entidade, Núbia Vieira.

Ele participou da Ultramaratona BR135 – a mais difícil prova do Brasil, com distância de 217 quilômetros, realizada na Serra da Mantiqueira, entre as cidades de São João da Boa Vista (SP) e Paraisópolis (MG).

Na chegada a São João da Boa Vista, véspera da largada, a equipe do iG Saúde encontrou Gabbardo fazendo a primeira coleta de sangue para a pesquisa do ICDF, para posterior análise. Aparentava tranquilidade e confiança em relação ao que iria enfrentar.

Ao colher as amostras, o bioquímico Néliton Maia, também de 55 anos, espantava-se com a aventura do paciente. “São 217 quilômetros? É muita coisa. Mas você está de parabéns”, elogiou.

A quilometragem era inédita para Gabbardo. Embora experiente, o máximo que já havia atingido tinha sido 155 quilômetros em uma prova de 24 horas. “A expectativa é completar a BR em 41 horas”, disse.

Comida de ultramaratonista

Do laboratório, Gabbardo voltou para o congresso técnico do evento e acompanhou compenetrado as últimas orientações da organização. Dali, partiu para as compras de suprimentos.

Água, isotônico, refrigerante, iogurte, bolacha, batata, macarrão: cardápio de corredor

No carro de apoio, que seria pilotado pelo pai e pela mulher durante a prova, tudo o que seria consumido ao longo do percurso: refrigerantes diversos, água, sucos, isotônicos, iogurtes, pão tipo bisnaguinha, batata chip, macarrão instantâneo, batata cozida com sal, carboidrato em gel, biscoito doce, chocolate, maçã e melancia.

O jantar da véspera seria um prato reforçado de massa. “O problema é que 24 horas antes de uma corrida eu começo a perder o apetite. Tenho de me forçar a comer”, contou. Já em relação à hidratação, capricho total. “É importantíssimo fazer a ingestão adequada de líquidos antes da prova”.

Outra preocupação do ultramaratonista eram as assaduras. “Nas primeiras provas longas que fiz, sofria com o atrito em várias partes do corpo, a ponto de sangrar. Até que comecei a usar uma pomada para assaduras de bebês”.

A emoção da largada

A expressão de tranquilidade do dia anterior tinha dado lugar a uma leve tensão na linha de largada, na sexta-feira, oito da manhã. “Agora começa a dar um frio na barriga”, confessou, momentos antes do início da BR135.

Mas ansiedade não era exclusividade do médico corredor. Entre sorrisos e abraços, todos os ultramaratonistas demonstravam apreensão. O maior temor de Maria Ritah Fernandes, de 43 anos, corretora de imóveis de Manaus (AM), era a noite. “Tenho medo do escuro. Nessas horas, um vagalume vira um monstro”, disse.

Incertezas passavam inclusive pela cabeça do bi-campeão da prova, Adilson José Pereira, o Ligeirinho, vendedor de 42 anos, da cidade de Poços de Caldas (MG). “Tudo pode acontecer ao longo de 217 quilômetros”.

Pior do que imaginado

A reportagem encontrou João Gabbardo com quase 50 quilômetros de prova corridos. Já passava de duas da tarde, muito sol e calor, ele ia rumo ao Pico do Gavião, na cidade de Andradas (MG), ponto de maior elevação da prova (com cerca de 1663m). Estava com mais de uma hora de atraso em relação ao plano inicial. “Estou mais cansado do que previa”, disse, subindo acompanhado da mulher Sabine e do amigo ultramaratonista Alberto Peixoto.

Ponto de checagem dos atletas, o Pico do Gavião tem uma vista inacreditável. Alguns corredores aproveitavam para comer e descansar um pouco. O professor de educação física Emerson Bisan, 37 anos, de São Paulo, diabético, fez ali sua medição de glicemia. “Estou me sentindo muito bem, está tudo sob controle. Hoje sigo em ritmo moderado, a ideia é aumentar amanhã”, disse, mostrando o resultado do teste.

Gabbardo preferiu descer rapidamente e montar seu “acampamento” ao pé do Pico, com direito a cadeiras de praia e macarrão instantâneo. Parecia ter recuperado o fôlego e mostrava-se animado para retomar a corrida com apenas 10 minutos de descanso.

Ele corria, o campeão chegava

O dia seguiu, a noite chegou. João passou por Serras do Lima, Barra, Crisólia e Ouro Fino. A reportagem voltou a ter notícias dele na manhã de sábado, com 26 horas de prova e mais de 100 quilômetros já rodados. Estava bem, havia descansado um pouco durante a madrugada mas os planos tinham mudado: agora a previsão era completar a BR com cerca de 45 horas – ou seja, por volta de cinco da manhã de domingo.

Enquanto nosso médico ultramaratonista seguia pelas trilhas montanhosas de Inconfidentes e Borda da Mata, debaixo de um impiedoso sol, com 28 horas e 19 minutos de prova o alemão naturalizado costa-riquenho Kurt Lindermueller cruzava a linha de chegada em Paraisópolis (MG).

Primeiro estrangeiro a vencer a BR135, Kurt parecia atordoado com a conquista – emoção, cansaço e dor se misturavam. Para recebê-lo, além de algumas poucas pessoas da organização, a mulher, Rebeca. Ela acompanhou o marido de carro, dando suporte durante toda a prova. “Sou sempre o apoio dele”, disse.

Com 50 anos, sete de corrida, o campeão da ultramaratona contou que se preparou para a prova correndo de cinco a seis horas por dia. “O mais difícil foi o calor”, disse exibindo bolhas na pele clara. “Mas a mente comanda o corpo – e a gente continua.”

O gostinho da BR135

À noitinha de sábado, a reportagem encontrou a equipe de apoio de João Gabbardo na pracinha da cidade de Tocos do Moji (MG). Sabine falou que o marido estava sentindo dores na sola do pé, devido a bolhas. No final da prova, o médico viria a confessar que, naquele ponto, achou que não iria completar a corrida.

Foi nessa cidade também que a reportagem do iG Saúde sentiu o gostinho da BR135. O comandante Mário Lacerda – como é chamado por seu staff – nos convidou para acompanhá-lo em uma “missão”. Ele precisava ter certeza de onde estavam todos os atletas e iria fazer uma “varredura” pelo caminho.

Acionou o recordista da BR135, Marco Farinazzo, e o corredor voluntário Augusto Vaz, que seguiriam por uma trilha. Parti com eles, por cerca de seis quilômetros, tendo a luz da lua e uma pequena lanterna para iluminar a escuridão. O percurso não é nada fácil, mas a sensação foi incrivelmente boa.

Uma vez localizados os ultramaratonistas na trilha e verificadas suas condições de segurança, o grupo seguiu para um rápido descanso de três horas.

E o domingo chegou

Nas primeiras horas da manhã de domingo a reportagem foi ao encontro de João Gabbardo e Alberto Peixoto por uma trilha. Eles ficaram animados ao ver a equipe da organização e até arriscaram um trote mais consistente.

Àquela altura, a ideia de tempo de conclusão de prova já havia ido por água abaixo. “O importante agora é chegar”, bradou Gabbardo. E assim continuou.

Às quatro da tarde, na cidade de Paraisópolis, chegava ao fim a saga do médico ultramaratonista. Com 55 horas e 11 minutos, ele concluía os 217 quilômetros da BR 135, abraçado à mulher e ao pai. Não sabia se sorria ou se chorava. “Foi muito mais difícil do que eu imaginava. Mas a sensação é fantástica. Fisicamente estou tri bem. A única coisa que incomodou foram bolhas na sola dos pés”, disse.

Gabbardo contou sobre o pior momento da prova: “No sábado à tarde, sofrendo com a temperatura alta, achei que não ia chegar. Perdi o humor, fiquei com raiva de mim, das bolhas, do calor…”

O médico recebeu sua medalha, comemorou e em seguida partiu para o novo exame de sangue, da pesquisa do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal. “Estou curioso para ver os resultados”, disse o ultramaratonista, novamente transformado em médico.

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Uma consideração sobre “ULTRAMARATONA, ESSA MODA AINDA VAI PEGAR! (Esporte e Saúde)”

  1. Raul,
    parabéns pela motivação e pelo comprometimento, li a reportagem no site e fiquei impressionado com a GARRA DESTES HEROIS…

    Comecei agora a correr, ainda estou no começo, fiz apenas uma corida de 10K e agora em 13/03 vou para a segunda, para ai sim, no final do ano “tentar” a São Silvestre.
    como diz uma amiga, eu corro pelas medalhinhas, não me interessa o tempo ou a colocação, somente a a alegria de chegar.

    grande abraço.

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