Quem será contra nós?

Falar o quê?

Paulo Rink

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Deus e Marina no recomeço de Dilma no segundo turno

Fonte: Terra Magazine

Por: Claudio Leal
De Brasília (DF)

Os carros das emissoras de televisão engarrafam a entrada do hotel Royal Tulip, próximo ao Palácio da Alvorada, na secura brasiliense do primeiro dia do segundo turno. O porteiro impede o acesso da imprensa ao estacionamento, mas é contestado pelas emissoras excluídas:

– Vimos o carro da Globo entrar. Vocês vão ter que liberar pra todo mundo!

“Isso aqui é o céu e o inferno de todo jornalista”, define uma repórter, ao ver o desembarque de lideranças nacionais para fortalecer o reinício da campanha presidencial de Dilma Rousseff. O encontro levanta-moral repete a estratégia de Lula em 2006, quando disputou um segundo tempo com Geraldo Alckmin (PSDB).

Descem de carros pretos os governadores eleitos Cid Gomes, Eduardo Campos, Jaques Wagner, Marcelo Déda, Sérgio Cabral, Silval Barbosa, Tarso Genro, Tião Viana e Renato Casagrande.

Renan Calheiros (PMDB), em ritmo marcial, desvia-se: “Falo somente no fim”. Bem mais atencioso é o senador potiguar Garibaldi Alves, com os estáticos dentes de quem engoliu o piano e deixou o teclado do lado de fora (obrigado, Manuel Bandeira).

– Estive cuidando da minha eleição lá no Estado, não sei informar sobre os erros da campanha – Garibaldi justifica.

Os mais votados atraem os pássaros da mídia livre. Eduardo Campos (PSB), de Pernambuco, é sitiado por câmeras e microfones.

– Do alto dos seus 82%… – uma exclamação perdida no tumulto.

Bispo Marcelo Crivella! Pele repuxada na altura dos olhos, como se estivesse eternamente no meio de uma oração, o senador da Igreja Universal oferece um atestado a Dilma:

– Ela é cristã, pelo menos me disse que era cristã… Pode ter tido seus momentos (de ateísmo), pelo sofrimento que passou (em sessões de tortura)… – logo ressalva.

O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), desembarca do alto dos seus 63,83%, ladeado pelos senadores eleitos Lídice da Matta e Walter Pinheiro. Jeitoso, o petista flerta o apoio da amiga Marina Silva, a protagonista ausente da reunião.

– Marina é maior do que o PV. Que me desculpe o PV, mas ela é uma liderança maior do que o seu partido.

Sorridente nessa segunda-feira pós-vitória, a primeira-dama baiana Fátima Mendonça comemora a derrota do candidato do PR ao Senado, César Borges, ex-aliado de Antonio Carlos Magalhães.

– Falei ontem na Bahia: a casa de César Borges caiu! (volta a observar o marido) Jaques, vamos!

Na coletiva, Dilma aparece com olheiras pesadas, compensadas por tentativas de bom-humor. Depois das acusações de ateísmo e dos boatos religiosos malévolos à sua candidatura, Deus esteja nas respostas.

Em nome do Pai.

– Hoje acordei de manhã e agradeci a Deus pelos meus 47 milhões de votos.

Do filho.

– Por isso eu agradeci a Deus pelos meus votos.

E do Espírito Santo.

– Considero que a eleição foi muito boa, por isso agradeci a Deus.

Câmeras desligadas, ela retorna ao salão da mesa circular, no qual se palpita sobre as estratégias a serem adotadas pelo staff.

– Está um saco. Cada um se levanta e fala como foi a eleição em seu Estado… Não é pra isso, ninguém aguenta. Virou uma assembleia! – desabafa uma das participantes.

Começa o estouro de aliados.

Requião, cabelo cinza reluzente e olhos afogados pelas pálpebras, identifica as fraquezas da campanha de Dilma, no primeiro turno, e sugere mudanças.

– Está claro que precisamos incorporar o programa ambiental de Marina.

– O senhor propôs isso lá dentro? – pergunta o repórter.

– Não. Eu fiquei quietinho.

– E o que mais se falou?

– O presidente Lula precisa parar de morder, porque ele ficou muito agressivo, sabe? Precisa voltar a ser o Lulinha Paz e Amor, ficar mais calmo. E ele me deu esse conselho lá no Paraná. “Requião, pare de ser agressivo e de atacar todo mundo!”. Pois veja, precisa seguir também esse conselho.

– O senhor expôs essa crítica na reunião?

– Eu não. Fiquei quietinho, bem quietinho…

Requião conduz o diálogo para o seu melhor tema: Requião. Debaixo de 24,84% de votos, o peemedebista dissidente revela o segredo da conquista de uma vaga no Senado, sem gastos perdulários.

– Sabe aquela filmadora Canon? Comprei uma. Aí eu fazia o meu texto, comprava uma fitinha e mandava pro programa eleitoral. Não tive gasto nenhum com marketing. Era só gravar e enviar pra ser exibido. E ninguém diria que alguém pudesse ganhar uma eleição dessa forma. Gastei R$ 25 mil com fitinhas.

Ex-candidato a candidato à presidência, o deputado federal Ciro Gomes (PSB) deixa a sala acompanhado do irmão, o governador cearense Cid Gomes. Numa camisa azul estilo Serra, Ciro dá uma canelada na imprensa:

– O governador é ele.

Defensor do licenciamento de Lula, para que se dedique à campanha de Dilma, Cid Gomes se chateia ao saber de um café-da-manhã com o presidente, no dia seguinte.

– Isso são horas de avisar? Poxa, eu não trouxe nem uma muda de roupa, nem um desodorante…!

A dez passos dali, Ciro retorna ao halterofilismo linguístico.

– Na mesa de bar onde eu estiver, Serra jamais será guardião da ética.

Ao lado, o governador Eduardo Campos elogia o debate público promovido por Marina e se atira da cumeeira dos seus 82%:

– Em Pernambuco, se ela (Dilma) tiver menos de 75% dos votos, eu não sei nem o que tô fazendo aqui!

Uma pausa para Eduardo Suplicy.

– Olha, eu ainda não gravei o depoimento pra Dilma…

Surpreso, o marqueteiro João Santana Filho se desculpa e encaminha Suplicy à equipe, que já desarmava os equipamentos de filmagem.

– Pessoal, Suplicy não gravou um depoimento. Por favor, gravem com ele…

Na despedida, João Santana usa a tática do celular – uma das armas charmosas de Marta Suplicy -, para descolar-se de repórteres e manter a discrição de sertanejo. Da porta do salão à entrada do hotel, concentra-se na conversa telefônica. Um grupo de jornalistas da Veja, Estadão e Folha de S. Paulo o cumprimenta e arrisca sorrisos amigueiros, para arrancar um naco de informação.

O publicitário breca.

– Oba, tudo bem?

E o celular, esse triste aparelho, vibra a tempo de conduzi-lo em sossego até o carro.

Num canto, Eunício Oliveira (PMDB), senador pelo Ceará, aguarda o motorista. Está a caminho da casa do presidente da Câmara, Michel Temer, e vai se incorporar a uma missão regional: acalmar Geddel Vieira Lima. O ex-ministro da Integração Nacional virou adversário de Dilma desde que a petista rompeu um pacto de lealdade e declarou apoio exclusivo a Jaques Wagner na Bahia.

– Vou dizer a Geddel: “Pô, esqueça isso tudo. Vote no Michel. Pense no Michel, que é o vice da Dilma. Ponha o Michel na frente!”

Dilma deixa o hotel. Aliviado com a gravação do depoimento, Suplicy se aproxima de três jornalistas e, a pedidos, começa a reproduzir as duas mensagens dirigidas à candidata.

– Atrapalho se eu me sentar? Na primeira, eu disse mais ou menos o seguinte…

 

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