Água Abaixo

Sem falar em copa do mundo e olímpiadas. Sempre fui, sou e sempre serei contra esses eventos em nosso país, por entender que temos outras prioridades sociais. A população brasileira precisa muito mais do que ginásios, estádios e piscinas, precisamos de consciência social.

Paulo Rink

——————————————

Especialista: Ao invés de trem Rio-SP, deveriam fazer casas

Por: Eliano Jorge

Fonte: Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br)

Os desastres provocados por chuvas e o desordenado uso do território urbano no Brasil tornam mais urgente a necessidade de se investir num amplo programa habitacional, na opinião do presidente da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE), o geólogo Fernando Kertzman.

Entrevistado por Terra Magazine, ele cobra investimentos em habitações para permitir a desocupação de áreas de risco. “Ao invés de fazer um trem de alta velocidade entre Rio e São Paulo, poderia usar esse dinheiro para construir milhões de moradias”, compara, se referindo à obra do PAC estimada em R$ 34 bilhões.

A partir do desastre em Santa Catarina em 2008 e com referências aos acidentes ocorridos depois, em São Paulo e no Rio de Janeiro, a ABGE e a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS) apresentam, em 16 de abril, na capital paulista, a Carta Aberta às Autoridades, indicando cinco medidas imediatas.

O documento técnico-científico propõe: elaboração de Cartas Geotécnicas e Cartas de Riscos, a começar das áreas mais críticas; monitoramento das áreas de riscos; remoção de moradias instáveis; capacitação de técnicos nos municípios e Estados; treinamento das comunidades situadas em áreas de risco.

As duas entidades pretendem fazer “um manual para que as prefeituras saibam como atuar nestas áreas de risco”. E que sirva para situações bem diferentes, como morros de floresta, declives ocupados e baixadas, por exemplo. “Algo simples, objetivo e que atenda condições diferentes das várias regiões do Brasil”, descreve Kertzman.

ABGE e ABMS sugerem um monitoramento dos morros, “um centro preventivo de emergências”. Até porque, ensina o geólogo, eles “não deslizam de uma vez só, vão dando sinais”. A comunidade seria treinada para perceber os indícios de perigo. “Para que exista um trabalho de prevenção, que custa menos de 10% do trabalho de correção. Imagina depois gastar fortunas com obras”.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – As cinco medidas principais da Carta às Autoridades não são medidas básicas e que deveriam constar de qualquer administração pública há décadas?
Fernando Kertzman –
Na verdade, os governos vêm fazendo, em algumas cidades, mas de uma forma muito tímida. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, no Recife, já há alguns anos, existe uma política de redução de risco, mas tinha que ser muito mais intensa. Para se ter uma ideia, o último cadastramento de áreas de risco em São Paulo tem 10 anos. No Rio, também. Os governos tinham que priorizar muito mais essa política de redução de risco de moradias, que tem cada vez matado mais gente no Brasil.

A iniciativa desta Carta surgiu a partir dos temporais em Santa Catarina, em 2008, e teve acréscimos em decorrência dos casos em São Paulo e Angra dos Reis depois?
Exato. A ABGE e a ABMS existem há 40 anos. Engenheiros e geotécnicos estão trabalhando nisso desde os morros de Santos, quando houve deslizamentos na década de 1960. Mas, com o exemplo de Santa Catarina, ficamos muito mais preocupados porque foram áreas ainda de floresta, que não estavam muito ocupadas e deslizaram. Desde lá, estamos trabalhando em conjunto, depois veio o acontecido em Angra dos Reis, que também não era uma área tão ocupada, mas a inclinação era muito grande. Em seguida, São Luís do Paraitinga, as enchentes em São Paulo. A gente fala dos morros do Rio de Janeiro, mas existem as áreas de baixada, o Jardim Pantanal em São Paulo. Então, a ideia é fazer uma cartilha, um manual para que as prefeituras saibam como atuar nestas áreas de risco.

Um manual que abrangeria casos completamente diferentes, como os de Santa Catarina, Rio, São Paulo…
Esse vai ser o maior desafio do manual: tentar fazer algo simples, objetivo e que atenda condições diferentes das várias regiões do Brasil.

É viável capacitar tantos moradores de área de risco?
Sabe que isso parece um grande desafio, mas já está sendo realizado com muito sucesso, por exemplo, no Recife? Em São Paulo, teve alguma iniciativa. Nos morros do Recife, existe uma cartilha que é levada em escolas, associações de bairros, igrejas, é explicado aos moradores o que acontece. Porque normalmente os morros não deslizam de uma vez só, eles vão dando sinais. Aparece uma trinca, aparece um degrau. Um córrego aparece com muita lama, com muita rocha. No caso da pousada de Angra, relatam que, dois dias antes do deslizamento, as cachoeiras e os córregos já estavam cheios de terra. A natureza e os morros, avisam, em geral, que eles vão cair.
Então, a ideia é mostrar aos moradores que eles têm condição de saber que uma desgraça está para acontecer. Que percebam esses sinais. A ideia é também mobilizar a Defesa Civil para receber essas pessoas e tirá-las das casas. Muitos não saem das casas porque não têm para onde ir e dizem que vão ser roubados. Teria todo um trabalho social para desenvolver.

Num país q tem tanta dificuldade de implementar iniciativas positivas, como se imagina que será possível aplicar esta Carta?
A gente está propondo que este trabalho seja contínuo, que seja feito o monitoramento dos morros. Que se crie um centro preventivo de emergências no Brasil. Não adianta atuar só quando se deu o problema, tem que atuar preventivamente, treinando a comunidade e mapeando – geólogos e engenheiros indo aos morros – para que exista um trabalho de prevenção, que custa menos de 10% do trabalho de correção. Imagina depois gastar fortunas com obras.

Por que este problema não é combatido de maneira efetiva, em diversos lugares do País, ao longo dos anos?
Acho que são várias questões. Na verdade, o grande problema é o deficit habitacional. O Brasil precisa urgentemente de uma política de construção massiva. Não adianta nada 50 mil casas por ano. Tem que fazer um milhão, dois milhões de casas por ano. Aí as pessoas vão ter como sair dessas áreas de risco, morar em lugares seguros, e esses morros serão reflorestados. Porque são áreas vulneráveis e permanentemente em risco. A origem de tudo está num programa habitacional, que, eu diria, é mais um problema de falta de prioridade do que de falta de dinheiro. Ao invés de fazer um trem de alta velocidade entre Rio e São Paulo, poderia usar esse dinheiro para construir milhões de moradias.

Terra Magazine

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s