Sem Tirar de Dentro (por Daniel Pinheiro)

Há muito venho tentando me redimir de meu passado sombrio como ilustre escritor desconhecido, e não mais ser tão irônico ao que escrever. Claro, dentre as vantagens de ser desconhecido, está o fato de que ninguém ao ler este texto possa imaginar a dimensão das bobagens que escrevi. Para não deixar no ar, só afirmo o que sempre tento explicar: nem tudo o que escrevo ou sobre o que opino reflete o que penso, mas sim, o que gostaria de pensar para que os outros possam pensar. Muitas vezes, sou propositalmente cínico, incoerente, ou absolutamente partidário de algo, apenas para ver se isso incomoda alguém.

O fato é que, assistindo de camarote virtual (vulgo Twitter) tenho visto surgirem os mais nobres “opinalistas” sobre todos os assuntos. Alguns, figuras ilustres. Outros, desconhecidos. Como eu.

Sendo assim, pouso em solo infértil para falar de algo que, creio, entendo patavinas, mas simplesmente quero falar: a capacidade política de nossos representantes políticos.

Gosto da definição de política mais simples, algo como, “o exercício do poder”. Mas, antes, ocupar-me-ei das descrições “wikipédicas” para o termo, que segue:

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Wikipedia (Política – Aristóteles)

Política (em grego Πολιτικα, em latim Politica), é um texto do filósofo grego Aristóteles de Estagira. É composto por oito livros (I: 1252a – 1260b, II: 1261a – 1274b, III: 1275a – 1288b, IV: 1289a – 1301b, V: 1301b – 1316b, VI: 1317a – 1323a, VII: 1323b – 1337a, VIII: 1337b – 1342b) e não existem dúvidas acerca da autenticidade da obra. Acredita-se que as reflexões aristotélicas sobre a política originam-se da época em que ele era preceptor de Alexandre. Ao mesmo tempo, Aristóteles compôs para Alexandre duas obras de caráter político que se perderam: Os colonos e Sobre a monarquia.

Na filosofia aristotélica a política é a ciência que tem por objeto a felicidade humana e divide-se em ética (que se preocupa com a felicidade individual do homem na pólis) e na política propriamente dita (que se preocupa com a felicidade coletiva da pólis). O objetivo de Aristóteles com sua Política é justamente investigar as formas de governo e as instituições capazes de assegurar uma vida feliz ao cidadão. Por isso mesmo, a política situa-se no âmbito das ciências práticas, ou seja, as ciências que buscam o conhecimento como meio para ação.

Segundo o filósofo:

“Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras tem mais que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política” (Pol., 1252a).

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Opa! Sou um descuidado, e acabo por começar como qualquer “opinalista”, expondo o primeiro achado cibernético sobre o tema, correto? Pode ser. Ou posso começar exatamente por onde deveria, pelo filósofo que, como citado no texto, tinha por objetivo “investigar as formas de governo e as instituições capazes de assegurar uma vida feliz ao cidadão”. Paro por aqui, trazendo o segundo achado “wikipédico”, fazendo mais uma vez a romaria dos “opinalistas”:

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Wikipedia (Política)

Política denomina arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa).[1] Nos regimes democráticos,a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.

A palavra tem origem nos tempos em que os gregos estavam organizados em cidades-estado chamadas “polis”, nome do qual se derivaram palavras como “politiké” (política em geral) e “politikós” (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos), que estenderam-se ao latim “politicus” e chegaram às línguas européias modernas através do francês “politique” que, em 1265 já era definida nesse idioma como “ciência do governo dos Estados”.[2]

O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-Estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana.

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Avancemos um pouco mais. A definição, sim, está relacionada com aquela, da própria obra de Aristóteles, pois remonta uma origem etimológica de seus tempos, e tem em seu significado a organização da vida coletiva. Ora, sou um defensor da coletividade em tempos em que o individualismo é um meio de sobrevivência, e como candidatíssimo a “opinalista” barato, ouso citar o fato de que boa parte da soberba de nossos políticos de hoje (e não ouso classificá-los como cidadãos, nem de hoje nem de ontem) vem de sua honrosa pretensão em descolar o sentido de política da noção de coletividade.

Os polítcos de hoje, a exceção de poucos, sequer escondem sua preferência pelo poder. Salvo engano, tempos (não longínquos) atrás, o nosso agora ex-governador Roberto Requião expressou sua relação íntima com o poder, sua necessidade de poder. Reafirmo que não sou partidário de coisa alguma, mas, de todos as coisas que ouvimos neste nosso dia-a-dia de vida em grupo, essa não foi das piores. Ao contrário: escutar um político falando de sua paixão* pelo poder é algo quase que impensável, em um mundo onde o marketing do “bom moço” ou da “boa moça” domina o cenário da luta pelo voto. Então, parabéns Requião.

(*Nota: tão logo publicamos, Requião corrigiu o que havíamos exclamado como paixão, com a seguinte nota pelo Twitter: Vc esta equivocado. Para mim poder é instrumento de mudança não paixão. Aproveito para, então, esclarecer a opinião e reiterar, assim como fiz pelo Twitter, os parabéns por ver um político assumindo que poder faz parte da política, como muitos não fizeram. E isto, continuo, não significa que sou partidário de suas ideias, ou tenho alguma simpatia por seu partido, também esclarecendo, já que alguns estranharam o fato de eu tê-lo parabenizado, publicamente, e por duas vezes, tanto no blog quanto no twitter).

E, parabéns também a todos que o criticaram e usam isso contra o próprio. Significa que, pelo menos, uma das premissas políticas estamos seguindo, se queremos um dia alcançar um mundo democrático: o debate. Apesar de cheio de “achismos” e de “opinialismos”, o cenário político brasileiro, em 2010, sofrerá, no bom sentido, seu maior abalo: a quantidade de “opinialistas”, misturados a “profissionais” do ramo, farão circular o maior debate da história das eleições brasileiras, pelo Twitter. Ajudado pelos veículos “tradicionais” da imprensa, que beberão e muito desta água, os “opinialistas” e os “profissionais” promoverão a maior troca de informações sobre os mais diversos assuntos. Há quem diga que isto será um prato cheio para os profissionais de marketing, que irão ter batalhões à postos para rebater a tudo que não favoreça ao seu cliente. E tenham a certeza de que, do outro lado, um outro exército estará pronto para, em um sincronismo impensável, responder à altura. E assim será, meus nobres amigos: o twitter ficará “ilegível” nos meses e dias próximos ao exercício plenamente parcial de nossa cidadania: o dia do voto!

E, neste dia, descobriremos que de nada valeu o debate, a “pseudodemocracia” criada pelo Twitter, e por sua vez, buscada por nós. No final, serão os opinalistas, profissionais e marketeiros os protagonistas da política que só quer o poder, e nunca, a real preocupação com a vida feliz do cidadão. Infelizmente, o próprio cidadão não sabe que o é, ou esquece para comprar uma bandeira, uma estrela, uma ave, um escudo, seja o que for; em uma militância sem rumo, em uma escolha de cartas marcadas, em um redistribuição de um poder que nunca foi nosso.

Fica o aviso, mais que batido, de um “opinalista” que torce por um mundo melhor, mais justo e mais democrático: vote consciente. E assuma o que fez.

Por: Daniel Pinheiro

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4 opiniões sobre “Sem Tirar de Dentro (por Daniel Pinheiro)”

  1. Daniel, meu querido amigo, não concordo com seu texto, embora eu sempre admita (risos) e admire a sua inteligência e excelente capacidade de expressão. Ao dizer que no final das contas os opinalistas e marketeiros serão os protagonistas e não os cidadãos, o seu próprio artigo revela uma opinião que subestima o povo, e assim seu próprio artigo se torna elitista. Não acredito em outro protagonista para qualquer eleição que não seja o povo, e este tem seus sonhos, suas aspriações, que fazem parte de um coletivo imaginário. Mas esse coletivo não é possível sem os indivíduos, os tais cidadãos. Esses sabem o que querem para si mesmos. Assim, a política é algo coletivo, porém sempre voltado para o individual. Não há como ser diferente. Todos votam pensando nos benefícios que o político lhes trará individualmente, ainda que indiretamente, mesmo que isso signifique consertar o resto do mundo para que o indivíduo votante também faça parte de um “mundo melhor”. O coletivo não existe senão na ficção; o individual existe no mundo concreto. A soma do individual é que pode valer alguma coisa. Quando o discurso dos profissionais do marketing se vale do sonho desse coletivo, que nada mais é que a soma de vontades individuais, os protagonistas não são esses profissionais, mas sim o povo, porque os profissionais estão servindo ao povo, fazendo o político dizer o que o povo quer ouvir. Então, é claro que o protagonista é sempre o povo, não importa quantos milhões se gaste numa campanha. O problema não está nos opinalistas, profissionais, nem no povo. O problema está na safadeza de quem faz o discurso de papel couchet, preparado num escritório qualquer, mas não cumpre o que prometeu ao povo que o elegeu. O político e o povo, ambos sempre souberam o que o próprio povo queria. O problema da democracia é quando não sabemos o que o político quer…
    Eis porque cada vez mais o Direito e o Judiciário vêm se afirmando nos destinos da Nação; eis porque tanto se fala em ativismo judicial, em intervenção judicial nas políticas públicas. A intervenção do Judiciário naquilo que o Legislativo ou Executivo não estão agindo adequadamente demonstra que nossa democracia não carece de legitimidade nas eleições, mas sim nas DECISÕES. O problema de nossa democracia está atualmente no período de governo, não no período eleitoral. O problema não é mais tanto o candidato, mas sim o eleito.

  2. É Thiago, embora eu não concorde em genero, numero e grau com a sua opinião, em parte você não deixa de ter razão, no final das contas quem protagoniza o pleito é mesmo o povo, e é justamente isso que me dá medo, muito medo…

    Um grande abraço a todos,

    Raul.

  3. Caro Daniel! Creio que um dia os protagonistas aqui citados tenham a consciencia da importancia do seu voto. E,sabendo que é o povo quem decide,lembremos que na constituição deste povo não há só eleitores com baixa instruçao,mas, também, pessoas com um nível social,intelectual e profissional que muitas vezes fazem escolhas erradas. Façamos nossa parte educando os analfabetos políticos de todas as classes sociais fazendo com que eles mudem não só o parlamento,mas também,a opiniao daqueles que acham que votar é só um dever e nao um gesto de cidadania.

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