Ser crítico, vale a pena? (Educação)

Meu avô foi pedreiro e mestre de obras. Minha mãe, solteira, funcionária pública (fato este que me fez ter o privilégio de nascer no Hospital do Servidor Público em SP), e por sua perda de audição agravada entre os 30 e 40 anos, deficiente auditiva. Meu pai, ao que soube, havia sido vendedor em loja de sapatos, mas a “carreira” que seguiu foi a de taxista. Se a profissão não é algo genético, ao menos eu poderia ser complexado, estigmatizado, ou as duas coisas ao mesmo tempo. O fato é que não fui, nem sou. E espero, que nem meus filhos.

O mundo de hoje procura rótulos para as pessoas. Por isso faço questão de expor a minha história. Não quero me vangloriar, sobretudo, desdenhar de qualquer outra pessoa. Hoje, tenho 2 empregos fixos (apesar de dizerem que professor em Faculdade Particular tem emprego semi-fixo, pois uma hora ou outra você recebe uma sapatada no traseiro). E sei que sou “empregável”, o que me deixa bem tranqüilo a tomar algumas decisões sobre o que fazer ou não. Além disso, como muitos sabem, sou estudante, faço Doutorado. E serei eterno estudante, pois foi isso que aprendi na vida, e é sobre isso que escrevo.

Hoje, não sabemos mais estudar. Boa parte disso é uma herança maldita de um novo modelo de educação, que enfia um pseudoconhecimento goela abaixo, e para “melhorar os indicadores do país”, obrigam nossas crianças a passarem de ano. Sim, obrigam.

Vejo pelos meus alunos de hoje. Não sabem estudar, mesmo os que querem. Não sabem dar coerência num texto, sem a ajuda do professor. Não sabem pensar de modo lógico. Não conseguem estruturar idéias para formar um bom texto. Não conhecem a sua própria língua.

Alguns dizem que os problemas da educação, estes especificamente, decorrem das exigências do “mercado”. Concordo. Assim como, adiciono que o mercado tornou os nossos governantes e pais tão ambiciosos, que esqueceram, inclusive, que a educação, em seu tempo, era muito melhor. Inclusive para o mercado. Recebi uma educação tradicional, sim. E os valores que compartilhei em casa e na escola, me são úteis hoje, para sobreviver. Se consegui algo, até que, para um gordo (agora, quase ex-gordo, finalmente) que veio de uma família sem grandes promessas, mas muito dedicada a estudar e a respeitar valores como amizade, companheirismo, é muito. E me orgulho disso.

As crianças aprendem hoje, coisas como competir até a morte, a ter medo, de tudo, a viverem de forma violenta. Se não aprendem como criança, insistem em ensinar aos jovens. E estou falando que acontece na escola.

A história é ensinada de forma errada. Está mais do que provado. E não é culpa, apenas, dos professores. Aliás, o sistema nos impõe que sejamos mais reprodutores de conteúdos e menos críticos. Será que é assim mesmo?

Gostaria, confesso, que meus alunos me desafiassem mais. Ou que refletissem mais sobre as coisas. Que evitassem as receitas, as respostas prontas. Sei que eles podem, que eles conseguem. Mas é difícil acabar com alguns vícios.

Parece impossível. Mas, não custa tentar.

Parabéns aos colegas que não desistem.

Daniel Pinheiro

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Uma opinião sobre “Ser crítico, vale a pena? (Educação)”

  1. A sua história me leva tambem a querer compartilhar um pouco da minha…
    Sou uma curitiboca genuína, oitava filha de um médico e de uma professora primária…nasci em casa(não sei se isto é privilégio?),estudei em colegio particular e pude fazer uma faculdade sem ter que trabalhar…até o curso superior sempre fui uma aluna mediana…mas na faculdade gostava tanto do que estudava (psicologia) que sempre fui considerada CDF…
    Na minha casa sempre cheia de muita gente o que aprendi foi ter respeito, que a amizade é uma riqueza a ser conquistada e que nada do que tinha era de graça e por isso minha responsabilidade por ter oportunidades era maior…hoje faço o que gosto…estudo o que quero…e revindico um mundo melhor….
    aprendi a pensar, a desafiar mas principalmente aprendi a sentir…
    e aí me encontro com a reflexão do Daniel e coloco mais um tempero… precisamos voltar a sentir para aprender…..e aprender o que? aprender a ser gente…gente de todo tipo….de toda espécie…gente que goste de gente….
    aprender que todas as histórias são bonitas e legitimas…e que sermos felizes não depende da nossa historia mas o que fazemos dela…
    Faça de sua vida uma boa historia…..
    Maria Carolina Leal

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