TeleSofrimento

Sem comentários. Mesmo.

Aliás, o TerraMagazine sempre trás coisas boas. De todos os gêneros.

Daniel Pinheiro

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O inferno existe e fica aqui mesmo

Marcelo Carneiro da Cunha

de São Paulo (SP)

Fonte: http://www.terra.com.br/terramagazine (Terramagazine)

Estimados milhares de leitores, trago novidades bíblicas! Posso assegurar a todos que o inferno, estimados leitores, existe, e muito. E não só existe como atende sempre que você discar 4004, 0800 ou 0300. E nesse último caso, o inferno não só é real e infernal, como ainda é cobrado por minuto.

E para provar o que eu afirmo, permitam que eu narre o tormento a que foi submetido nesses dois últimos dias um conhecido meu, alguém em que confio plenamente, e que acredito incapaz de inventar o que quer que seja, não por ausência de desejo, mas por completa falta de imaginação.

Meu amigo, que se chama, hummm, digamos, M, conheceu o calvário e carregou sua cruz nos últimos dias, onde tudo o que passo a narrar aconteceu com ele, segundo me contou, lágrimas escorrendo rosto abaixo, lágrimas de um sujeito amargurado, exausto, os dedos feridos de tanto digitar 2 para pedir assistência técnica, 3 para comprar serviços, 4 para implorar por uma ajuda que jamais vem, 5 para registrar uma queixa que ninguém vai escutar mesmo, 6 para repetir o cardápio de opções por puro masoquismo, 7 para falar com um de nossos representantes, 8 para falar com outro de nossos representantes igualmente despreparados ou desinteressados ou ambos, 9 para chorar. Dois dias disso, estimados leitores, e M é um farrapo humano.

Ele senta diante de mim, num café, murmura que quer um expresso e nem reclama quando trazem uma xícara de chá. Ele mexe o chá e olha para a mesa, sem realmente se dar conta de que eu estou ali, que espero que diga algo, que me aflijo com o que estou vendo.

Ele diz que tudo começou com uma operadora de celular. Ele recebeu cobranças de muitas centenas de reais por conta do uso de serviços de dados. M estranhou o valor, mas sempre sabe que alguns amigos são prolixos, enviam e-mails extensos, quem sabe? M primeiro paga, depois discute, uma de suas manias. E, então pede à operadora que lhe envie um relatório que demonstre o uso do serviço, para que ele sinta que, ao pagar, fez justiça. A empresa envia um relatório do uso dos serviços de voz. “Não, diz M, não era isso!” Dados. Dados, não voz. A operadora se desculpa e envia novo relatório. De voz.

M então faz o que qualquer cidadão respeitador das leis e do sistema faz nessas horas. Envia uma reclamação à agência reguladora. Ela dá um prazo para a operadora se explicar. Como o sistema funciona, dentro do prazo a operadora faz contato e informa a M que ela, infelizmente, não oferece relatórios do uso dos serviços de dados, mesmo que cobre milhares de reais por eles. Que essa informação está disponível no site, naturalmente.

“Oh, que tolo fui”, pensa M. “O site, claro!”

M então acessa o site, onde diz “Acesso ao seu uso de serviços de dados”. E, para seu espanto, sabem o que o site informa a ele, estimados leitores? “Não existe informação sobre uso de dados!”

M então liga para a operadora, para informar a eles que o sistema não faz o que deveria fazer, ou talvez tenha havido um equívoco e ele não tenha efetivamente utilizado os serviços pelos quais teve que pagar. Nesse momento, a operadora mostra o toque de gênio, a prova inequívoca da existência do inferno, ou ao menos, do demônio: “O senhor nos desculpe, mas o sistema está fora do ar”, explica gentilmente o representante da operadora. “Tente de novo em 24 horas.”

M resiste a tudo, e diz que sim, tentará novamente em 24 horas.

Nesse instante, mais ou menos, M descobre que o seu luxuoso modelo de refrigerador, produzido por uma empresa, digamos, coreana, usa um filtro ultra avançado para, uai, filtrar água. O filtro informa digitalmente que chegou ao fim de sua vida de filtro e precisa ser trocado. Ele então faz o que qualquer um faria e acessa o site para ver onde encontra o filtro. O site aponta apenas um lugar, em toda a Grande, a Enorme, São Paulo. Ele então liga para o número listado e descobre, para sua enorme surpresa, que o número está errado.

M pensa por alguns instantes e faz a segunda coisa que um cidadão consciente faz nessas horas e, naturalmente, liga para o SAC. O SAC dá a ele uma lista de muitas assistências técnicas e garante que TODAS têm o tal filtro, mas que ele, pobre atendente, não sabe e nem tem como saber uma coisa desimportante como o preço do filtro. M entende. Por que uma empresa, ainda mais sendo líder mundial de alguma coisa, precisaria saber o preço do que ela produz? Ela já vendeu o refrigerador, e alguém comprou. Para que saber mais do que isso? São tantas vendas, tantos refrigeradores, tantas pessoas querendo saber coisas como telefones, endereços, preços! “Ora faça-me o favor”, diz o atendente. “Me pergunte uma coisa que eu saiba! Sabe o Coringão? Meteu dois no Emelec, que mais eu preciso saber, afinal?”

M não acredita no que ouve e exige um número de um lugar onde possa comprar o filtro. Depois de muita pesquisa, o atendente lhe passa um número. M experimenta. O número informa que sente muito, mas ao contrário do inferno, ele, o número, não existe.

Olho para M. Eu gosto dele e o respeito, mas é evidente que está com graves problemas mentais. M deve ter entrado para uma dessas seitas malucas e deve ser pago para me convencer, para convencer a todos nós, de que o inferno está em toda parte.

“Não terminei”, me diz M.

Não?

“Companhia aérea”.

Que que tem, pergunto?

M diz que acaba de tentar ajudar um amigo alemão a comprar uma passagem, com uma das duas companhias que monopolizam nossos aeroportos, mas se recusa a me dizer qual. Enquanto ele dialogava com os fabricantes de refrigeradores, mas não de filtros, a empresa aérea informava a ele que a emissora do cartão de crédito, sediada em Berlim, não tinha aprovado a compra. O amigo alemão ligou para a emissora do cartão, que informou a ele que a compra estava sim, autorizada.

M contou isso para a companhia aérea, enquanto esperava por alguma informação sobre o filtro e acessava de novo o site da operadora de celular, em vão para tudo. A aérea disse que infelizmente tudo o que sabia era que a emissora do cartão havia recusado o pagamento. Portanto, ela, inocente companhia aérea, que realiza apenas milhões de transações com a emissora de cartões, não tinha como entrar em contato com a emissora, que não passa de uma das três maiores emissoras de cartões em que o mundo foi dividido. Ou seja, as duas empresas, uma imensa aérea e uma gigantesca emissora de cartões nunca tinham sido apresentadas, não pegaria bem se tentassem começar uma conversa assim, do nada. Portanto, era M quem precisaria falar com uma e com outra, até que finalmente se entendessem, e a passagem pudesse ser emitida, ou o pagamento cancelado.

“Até esse instante, aqui e agora”, me diz M, “dois dias de tentativas e não consegui chegar perto de saber onde existe o filtro, não consegui cancelar ou emitir a passagem, não tenho idéia sobre o relatório dos tais serviços de dados, pelos quais tive que pagar 1.300 reais, sem saber se usei ou não.”

Fico pensando se essa história não pode mesmo ser a comprovação que aguardamos a séculos, comprovando a presença do inferno, aqui, agora, ao alcance de todos nós, e não de uns poucos.

Digo a M que vou escrever uma coluna a respeito, que vou enviar por e-mail para que ele revise algum eventual desacerto meu. Mesmo narrando algo obviamente imaginado e inexistente, quero ser preciso.

“E-mail?” – me diz M, com ar desolado. “Não vai dar. A empresa que me vende o serviço de banda larguíssima não consegue descobrir o que há de errado, mas deve ser alguma coisa séria, porque já são três semanas que eles vão até lá em casa e tentam tudo, mas nada dá certo. Parece agora que é a fiação”.

“Mas, pelo menos, não lhe cobraram por esse período em que você não está usando os serviços, não é mesmo, M?”

Essa é a última coisa que digo a ele, a última vez em que o verei por um bom tempo.

M pulou de uma ponte sobre o rio Pinheiros, me contam, que justamente nesse dia, não estava alagado. Quebrou uma perna, me garantem. Se recupera logo, parece, assim que conseguir provar que a mensalidade do seu seguro médico estava em dia. Ele afirma que sim, me contam. O sistema parece andar fora do ar, e não é de hoje, nem por hoje. Quando voltar, avisam.

Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem “O Branco”, premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos “Simples” e o romance “O Nosso Juiz”, pela editora Record. Acaba de escrever o romance “Depois do Sexo”, que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances “Insônia” e “Antes que o Mundo Acabe”, publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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