Saudades…

Grande Daniel,

Surfando na internet, achei o texto abaixo no blog do Torero (leio de vez em quando), extremamente interessante e nostálgico, também senti saudades de varias coisas…

Jefferson Anibal

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Jefferson,

PQP, muito bom. Fiquei lembrando, dos tempos de escola, do futebol no campinho de areia, naquela pelada de toda tarde com os amigos na beira da praia… ê vida!

Daniel Pinheiro

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Fonte: http://blogdotorero.blog.uol.com.br/arch2009-11-01_2009-11-30.html

Saudades

(A pedido dos leitores Érika e Nelson, vai aí um texto que escrevi quando tirei férias da Folha por um ano. Depois ele foi publicado no livro “Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso”)

Hoje, estranhamente, acordei com saudades. Saudades dos ataques com cinco jogadores, das bolas de capotão, dos torcedores com chapéu que chegavam de bonde, saudades das camisas sem patrocinador, saudades de encontrar os jogadores do meu time na padaria, saudades dos sonhos de goiabada.

Também senti saudades de jogar bolinha de gude, de empinar pipa, de descer escada sentado em tapete, do pé de pitanga de meu avô, de pegar jambolão, de bala alcaçuz, de carrinhos de ferro, de frases com reticências.

Acordei com saudades de vizinho educado, de nhoque feito pela avó, de chuteiras sem logotipo, de seleção sem logotipo, de jogador sem guarda-costas, de atacante com cabelo, de meus cabelos, de ver mulheres de sombrinha em dia de sol, de ouvir alguém que eu nem conheço me dizer bom-dia.

Senti saudades de jogar bola na rua até esfolar o dedão, de jogar na chuva, de usar uniforme para ir para a escola, de Grapete, de Cerejinha, de meu avô.

Saudades do pomar da casa ao lado, de dormir depois do almoço, dos shorts de panos estampados feitos pela minha mãe, de ser magro, de balão de são João, de ir na praia à noite, de pôr cadeira na calçada, de rua de areia, de cheiro de pêssego, de entrar de graça no estádio, de brincar de forte apache, de quintal.

Senti saudades de jogadores que não mudavam de clube, de ganhar jogo de xícaras com figurinha premiada, do meu time de botão – feito de tampas de relógio e pintados por mim mesmo.

Saudades das Vemagets, dos Pumas, dos SP2, saudade de sagu feito em casa, de meu primeiro Ki-Chute, saudade do barulho da batedeira de minha mãe.

E saudades de ir aos jogos com meu pai, de perguntar por que só o goleiro pode usar as mãos, saudades de uniforme todo branco, de ficar com raiva quando meu time usava o listrado, de paçoca em saquinho vendida em carrinho com bico de foguete, saudade de porta aberta.

Também senti saudades de tevê em preto e branco, de casa com jardim, de espiar escondido a empregada namorando escondido no portão, de usar fantasia no carnaval.

Saudades dos mortos, de ter medo de cemitério e de filme de vampiro e de homem-do-saco. Saudades de ver os seios que apareciam de vez em quando, e só de vez em quando, na televisão, de ver os avós brigando e fazendo as pazes, saudade do tempo em que futebol não era negócio.

E tenho saudades de pão com mortadela, de molhar o biscoito no café com leite, de não entender de política, de nem saber o que são commodities, de pensar que o presidente é honesto, de nadar na praia com um calção que ficava pesado e quase caía, de briga de empurrão com meus irmãos.

Saudade de ganhar dinheiro do meu avô para comprar figurinha de chapinha. Saudade do tempo que já foi. Saudade do que já fui.

E enquanto escrevo esta última crônica, já tenho saudade de escrever sobre futebol



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