A Tchutchuca e o Dr. Dedé (Crônica)

Amigos Leitores,

Mantendo nossa sessão de crônicas atualizada, segue outra do Taylor Diniz.

Boa leitura.

Raul Avelino

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A tchutchuca e o dr. Dedé

“Depois de velho, virou sonâmbulo”, comentou a dona Mira, a cara de desdém, ao revelar a uma amiga o novo problema do marido.

Sempre à mesma hora da noite, o dr. Dedé acordava e saía pela casa, cantarolando uma música totalmente estranha aos costumes da família.

“Sonambulismo não mata. É só trancar bem as janelas pra evitar que a nulidade caia lá embaixo e pronto!”, continuou a dona Mira. “Além do mais, tenho coisas mais nobres a me exigir neurônios, e não vai ser agora, depois de velha, que vou perder o sono com outra das maluquices do Dedé”.

Mas sempre vai haver um dia que, por um simples detalhe, acabará sendo diferente do outro. Naquela noite, a dona Mira estava muito nervosa, o gato do vizinho tinha matado sua caturrita de estimação, que cantava “Segura o tchan, amarra o tchan!”, e ela perdera o sono.

Na mesma hora de sempre, o dr. Dedé levantou da cama, os braços esticados para a frente, olhos semi-aberto, e saiu pela casa, cantarolando a tal música:

“Tchutchucaaa! Vem aqui com seu tigrão! Vou te jogar na cama! E te dar muita pressão!”

Deu algumas voltas na sala, na cozinha, passou em frente ao quarto, como para reconhecer o terreno, voltou à sala, abriu a porta e saiu. Tão logo botou o pé pra fora, baixou os braços, abriu os olhos e parou de cantar. Desceu as escadas correndo e entrou no apartamento da Gelcy, que já o esperava de braços abertos e pronta para o amor.

A dona Mira, que vinha ao encalço do marido, meteu a orelha na porta, à guisa de curiosidade, e ouviu coisas que há décadas não ouvia mais. Tchutchuca pra cá, tigrão pra lá, e ela não se conteve. Deu dois passos para trás, pedalou a porta e invadiu, sem cerimônia, o domicílio da impostora. Gravateou o dr. Dedé e puxou-o para fora.

Antes de subir a escada com o marido de arrasto e um palmo de língua pendurada num canto da boca, ela olhou para trás, para a Gelcy parada na porta, e disse, cheia de razão:

“Tá dominado! Tá tudo dominado!”

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