A Sustentável Leveza do Ser II – Panis et Circenses (por Raul Avelino)

A Sustentável Leveza do Ser II – Panis et Circenses

Por Raul Avelino

Pois é, eu ia só deixar um comentário, mas como a obra é merecedora de muitos apontamentos, a coisa ia ficar extensa demais e assim eu o elevei a categoria de artigo e pra utilização do título peço licença ao Kundera e ao Daniel de Auxiliadora. Sim, por que se Parmênides é de Eléia, Daniel é de Auxiliadora. Aliás ele é do nordeste e lá é assim, alguém é sempre de alguém, principalmente quando se pergunta de alguém. Por exemplo, você chegando em Caicó-RN (terra do pai dele*) pergunta a um morador por Toinha, este lhe responderá com outra pergunta: ”É Toinha de Nonato é? Se for Toinha de Nonato ela mora logo ali mesmo, virando à direita depois da casa de Zé, mas é Zé de Dina, que Zé de Zefa mora adiante mais Raimundinha de Jerônimo (que em bom nordestês é Jeronho)”. Portanto, por questão de justiça Daniel é de Auxiliadora, mesmo porque Márcia de Daniel, lá pouca gente conhece (por enquanto*).

Feito este pequeno intróito, vamos ao que interessa, a leveza, ou o não peso, do ser. Já é de tempos que o Daniel vem questionando a falta de critérios quando o assunto é consumo e sempre nas entrelinhas percebe-se um velado autoflagelo como se ele se sentisse culpado por em algum momento ter falhado na sua missão enquanto educador. Pois olhe meu amigo, você não tem mesmo responsabilidade nenhuma, essa é uma questão cultural. E é aí que está o contrassenso. Nós, brasileiros no afã de sermos livres ou de não termos o peso do comprometimento, rompemos os grilhões de algumas imposições e acabamos sem perceber nos tornando escravos, ou pesadamente comprometidos com outros vícios.

Por exemplo, politicamente não queremos ter o “trabalho” de buscar a informação, digeri-la e formar nossa própria opinião. Muito mais cômodo aceitar a opinião pronta que nos chega pelos jornais nacionais da vida. Com isso não carregamos o peso do compromisso cívico de sermos politizados e temos a liberdade de votarmos em qualquer um, como resultado acabamos escravos dessa malta de bandoleiros que nos (des)governa.

Eu quero ser livre para decidir se faço ou não um curso superior. Mas, graduação hoje em dia, além de comércio virou moda. E pouquíssima gente cursa uma faculdade preocupado em aprender e apreender algo. Muitos o fazem porque a “Verinha Costa Couto Soto Maior” está matriculada, então eu também preciso me matricular, ou porque eu acho, sem nenhum embasamento mais substancial, que essa é uma imposição do mercado, então vou lá e faço um curso qualquer com objetivo de ter uma formação independente da carreira que eu queira, goste, tenha condição e vocação para seguir.

Assim, o que temos na prática é jardineiro psicólogo, mecânico filósofo, playboy universitário e presidente analfabeto.

Enquanto a real necessidade do mercado, que é mão-de-obra qualificada tecnicamente, não é suprida e, pior, na outra ponta temos índices de desemprego, subemprego e informalidade estratosféricos. Mas, fazer o quê? Curso técnico não está na moda, chique mesmo é “fazer faculdade” qualquer uma e de qualquer jeito, daí a proliferação de “uniesquinas” pra todo lado. Hoje é comum vermos prédios velhos que recebem uma “reformadela” e se transformam ou em uma uni qualquer coisa ou em igreja universal e afins.

Com isso temos uma grande massa de ignorantes orando e sendo enganados e outra grande massa de inconseqüentes se enganado e fingindo que estuda e nesse samba do crioulo doido temos o ambiente ideal para o crescimento desenfreado de um consumismo cada vez mais sem critérios.

Nesse cenário em que o couro come, nadam de braçada a indústria automobilística – estamos comprando mais carro zero do que geladeira – , a indústria da informática e tecnológica em geral – trocamos de celular a cada seis meses e de computador uma vez por ano – , e até a indústria do entretenimento, principalmente a de gosto duvidoso – duplas do tal “sertanejo universitário” e bandinhas de pagode e eteceteras e tais se multiplicam em ritmo virótico e pior, têm público que os consome!

Nessa esteira vem o governo dos ex-guerrilheiros que também nada nessa praia com a pretensão de se perpetuar no poder e promove os bolsas isso e bolsas, aquilo completando a máxima que vem como sobrenome desse artigo “panis et circenses”. E vamos nós consumindo o pão e o circo que a nossa própria irresponsabilidade nos fornece, enquanto isso, pelas bandas do planalto central o presidente apedeuta e o senador com seu bigode de rodapé de xoxota e todo o resto da patuléia fazem a festa e segue o baile.

É, nós somos assim, insustentavelmente leves, quando não, levianos.

*Notas do próprio Daniel Pinheiro.

2 opiniões sobre “A Sustentável Leveza do Ser II – Panis et Circenses (por Raul Avelino)”

  1. Belo complemento esse artigo do Raul, disse tudo, ou melhor escreveu tudo o que pensamos e as vezes não falamos…
    Olha eu copiando o texto alheio e caindo no paragrafo 3 do texto.
    Parabéns Raul…

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