A Sustentável Leveza de Ser (por Daniel Pinheiro)

A Sustentável Leveza de Ser

Por: Daniel Pinheiro

Disponibilizarei as primeiras (e talvez, segundas e terceiras) linhas deste post para explicar apenas o título. Vale a leitura, porque pode despertar o interesse por um belo livro. Eu mesmo tenho vontade de voltar à sua leitura, quando possível, e parte deste desejo é fruto exatamente das reflexões pessoais para este texto. As informações que se seguem nos próximos parágrafos acerca da obra, são da colaborativa Wikipédia (links preservados):

A Insustentável Leveza do Ser (em checo Nesnesitelná lehkost bytí) é um livro publicado em 1984 por Milan Kundera. O romance se passa na cidade de Praga em 1968. Foi adaptado para o cinema pelo diretor Philip Kaufman sob o nome de The Unbearable Lightness of Being. (…) A história acontece em Praga e em Viena, em 1968, e atravessa algumas décadas. Narra os amores e os desamores de quatro pessoas: Tomás, Teresa, Sabina e Franz. É permeada pela invasão russa à Checoslováquia e pelo clima de tensão política que pairava na Praga daqueles dias.”

A presença de conteúdos essencialmente filosóficos no texto de Kundera faz-se notar de modo explícito, por força do estilo narrativo de Kundera. Sua constante “saída” do texto e os capítulos em forma de comentário funcionam à maneira de notas de rodapé, esclarecendo o leitor sobre o terreno filosófico e psicológico em que a história se desenrola. A referência a autores da tradição filosófica como Nietzsche e Parmênides situam o enredo do romance dentro de uma perspectiva existencial, submete as situações à uma análise filosófica, à uma reflexão especulativa. Segue-se, abaixo, um sucinto sumário de temas presentes na obra.

A Leveza e o Peso
A problemática da leveza e do peso possui amparo na filosofia de Parmênides. Parmênides de Eléia (cerca de 530 a.C.460 a.C.), filósofo pré-socrático, situou sua problemática em torno das dualidades ontológicas do Ser. A dualidade, porém, por força de sua perspectiva unitária de Ser, surgem da presença e da ausência de uma entidade. Neste sentido, o frio é apenas a ausência de calor, o não-calor. As trevas são a ausência de luz, a não-luz. Para Parmênides, entretanto, ao contrário do que o pensamento lógico-formal com o qual estamos habituados nos faria supor, a problemática da dualidade leveza/peso revela o peso como ausência, como não-leveza.

Kundera desloca a dualidade do peso e da leveza para uma perspectiva existencial, mesclando-a ao problema da liberdade humana em uma perspectiva próxima à problemática do existencialismo. Para Kundera, a leveza decorre de uma vida levada sob o teto da liberdade descompromissada. A leveza segue-se de um não-engajamento, um não-comprometimento com situações quaisquer, aproximando-se, nesse sentido, das idéias de Jean-Paul Sartre sobre a condição humana. O personagem Tomas é a metáfora através da qual Kundera ilustra as consequências existenciais do comprometimento da liberdade para com uma situação qualquer – no caso, o vínculo afetivo com Teresa. A partir de então Tomas experimenta o peso do comprometimento, peso opressivo de um engajamento qualquer, uma situação qualquer. A leveza, porém, despe a vida de seu sentido. O peso do comprometimento é uma âncora que finca a vida à uma razão de ser, qualquer, que se constrói – sob uma perspectiva existencialista, evidentemente. Sob a perspectiva da filosofia nietzscheana, porém, Tomas levava uma vida autêntica, construindo os próprios valores sob os quais conduzia sua vida. Teresa ilustra a problemática da moralidade de escravos: incapaz de realizar um empreendimento como o de Tomas, amarra-o pela força de sua impotência, chegando ao final à admissão do fato de ter “destruído sua vida”, no final do livro. Tomás, encarnando metaforicamente a noção nietzscheana de amor fati, revela que não se arrepende de nada, remetendo à doutrina do Eterno Retorno, mencionada no início do livro.

O Eterno Retorno
Kundera entrevê na noção de Eterno Retorno da filosofia nietzscheana a escapatória para o arrependimento que pode decorrer da escolha entre a leveza e o peso, o comprometimento e a liberdade pura. Kundera explica a idéia de Eterno Retorno no início do livro, no primeiro capítulo da primeira parte. Em linhas gerais, a idéia diz respeito à possibilidade das situações existenciais repetirem-se indefinidamente no tempo, por força de uma finitude das possibilidades frente a infinitude do tempo. O que parece um fundamento cosmológico vazio ganha implicações éticas imensas na perspectiva de Kundera: uma vida que desaparece não tem o menor sentido. A própria história humana só é tratada com descaso pela própria humanidade por força de sua linearidade. Uma mentalidade educada sob a perspectiva de uma história cíclica, repetindo indefinidamente, dificilmente deixaria escoar no vazio a própria vida. O argumento do Eterno Retorno assume então uma face de “convite à vida”, com suas alegrias e mazelas. De modo rasteiro, a idéia do Eterno Retorno convida o homem a fazer a vida valer a pena de ser vivida.

A compaixão
Um capítulo inteiro é dedicado à questão da atitude humana de compaixão. Sob uma perspectiva filológica, Kundera compara o sentido da expressão nas línguas latinas e nas línguas germânicas, e as implicações dessa nuance de sentido na vida psicológica e sentimental dos indivíduos. Kundera afirma que as derivações latinas da palavra compaixão significam simplesmente piedade, um sentimento que se impõe quando um indivíduo está em posição de superioridade frente a um outro que sofre. Assim, a compaixão torna-se uma relação de poder dominadora, na qual um indivíduo se sobrepõe sobre outro, podendo oferecer-lhe sua compaixão como um presente, sem porém compartilhar do sentimento que leva o próximo a sofrer. Nas línguas germânicas, porém, compaixão assume um sentido de “co-sentimento”: o in´divíduo que sente compaixão sofre junto com o seu próximo, o mesmo sentimento. Para Kundera, a compaixão é muito mais terrível do que a piedade porque a incapacidade humana de transpor os limites da subjetividade faz com que o sentimento careça de um certo esforço imaginativo que quase sempre multiplica a dor do próximo, fazendo-a mesmo maior do que a do próximo. A metáfora utilizada para ilustrar o problema da compaixão é, mais uma vez, Tomas em sua relação com Teresa. É através da compaixão que ele sente por ela que ela consegue prender-se a ele em definitivo desde o primeiro momento.

Para melhor compreensão do livro de Milan Kundera, é interessante abordar temas como a “Primavera de Praga“. O livro aborda alguns relatos históricos, inserindo a narração num contexto real. Isto torna o livro ainda mais interessante, pois pode ser visto parte como realidade, parte como romance. No livro, o Amor se torna presente em quase todos os momentos, o que não quer dizer que consista em um “mar de rosas”. Muito do que se aborda no livro são conflitos do amor-ideal e “amor-real”. Detalhes do cotidiano da época e costumes do povo Tchecoeslovaco (na época, República Theca e Eslováquia eram unidas em um só País) são muito bem descritos. Uma forma de leitura onde o lado psicológico predomina sobre o momento real”.

———

Deixo esta pequena quebra, para continuar daqui. Estranho se começar um texto próprio trazendo uma imensa citação de um livro, e desejar que os amigos leitores façam sua leitura. Sim, desejar.

Nas últimas semanas, meus comentários acerca da falta de capacidade de leitura de meus alunos tem sido constantes. E isto cada vez me preocupa mais.

Na própria Wikipédia há uma interessante descrição de liberdade: Liberdade, em filosofia, designa de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, ela qualifica a independência do ser humano. De maneira positiva, liberdade é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional. Isto é, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários.

E é exatamente isto que quero falar: liberdade. Considero que boa parte da condição dada ao homem de escapar da submissão e servidão aos outros, ou a si próprio, advém de sua capacidade de reflexão e auto-compreensão. A liberdade, portanto, é uma condição que só pode ser conquistada a partir do crescimento espiritual e intelectual.

Talvez um dos maiores problemas da educação atual esteja no fato de se preparar as pessoas para o chamado “mercado de trabalho”. Trabalha-se com uma filosofia de se preparar as pessoas para sobreviverem em uma pré-condição de que estas pessoas serão submissas aos valores do dinheiro, da conquista, da sobrevivência dolorosa para a tão sonhada conquista material. Pouco se tem compartilhado valores como a solidariedade e a ajuda mútua, ou em outras palavras, em quase nada se tem desenvolvido o senso de coletividade.

Isto se torna um problema, pois, tenho uma opinião bastante direta: quanto mais isolado estiver o indivíduo, menor será a sua capacidade de libertar-se. No livro que mencionei, percebe-se que a compaixão está além da simples ajuda, mas em algo como a necessidade de, além de amparar, sofrer junto, compartilhar o sentimento. Sozinho, o indivíduo está sujeito a uma relação dominadora, em todos os sentidos.

Tornando este texto um pouco mais real, posso afirmar sem medo que indivíduos carentes, educados nesta perspectiva de isolamento e com um instinto material de sobrevivência, sucumbirão facilmente às seduções do mercado. As doenças da moda, como stress, depressão, síndrome do pânico, e várias outras, parecem ter uma mesma raiz: o trabalho, o descontentamento com a vida, a decepção pela não conquista (ou perda) material.

Assim, estamos criando um bando de compradores compulsivos, sensíveis a qualquer tipo de apelo emocional, facilmente criado pelos profissionais de comunicação, e estimulando cada vez mais a criar uma sociedade dependente de um único valor: o dinheiro.

Mas, tenho criticado algumas vezes o sistema de ensino, especialmente o superior ao qual faço parte. E daí? Como em Tomás, personagem do livro, comprometer-se é análogo ao peso. E assim fazemos hoje, buscando um comprometimento cada vez menor. Quem não preferia simplesmente desprender-se do compromisso do trabalho, ou não precisar carregar o peso de ajudar o teu próximo, em troca de uma vida cômoda, onde se poderia ter de tudo? No discurso, se bem conheço, muitos diriam que não. E isto é ótimo. Concordo com Kundera, ao levar o leitor a questionar a leveza, o não comprometimento, com formas de prisão. Tornar a leveza sustentável, ou cotidiana, é não buscar desafios, é não refletir sobre si mesmo. Acabo de quebrar eu mesmo o meu título, propositalmente, para fazer minhas parcas considerações sobre como eu acho que deveria ser. Sim, acho.

Recordo meus primeiros passos na educação, quando minha professora na primeira série, ao ensinar uma cantiga, dizia que mais importante do que saber cantar, seria que todos estivessem comprometidos com a roda. Sim, mãos dadas, girando, dançando e cantando, seria um momento belíssimo. Tanto que a lembrança, ao escrever este texto, me é bastante nítida. A lição ficou, marcou, e provavelmente ajudou com que eu chegasse à parte dessas reflexões.

Os passos seguintes seriam dados ainda na faculdade, quando assumi o compromisso, comigo mesmo, de um dia devolver aquilo que eu não pagava. Cursei Universidade Federal. Senti, um dia, obrigação de passar adianta aquilo que eu recebia. Fui criado em uma família com esses valores, então não tinha outro caminho a não ser tentar lecionar. Dispus-me, então, a um mestrado, e hoje a um Doutorado, por acreditar ser possível comprometer-me com os meus alunos, com a instituição onde eu estivesse. Quando escrevi os posts “O Preço da Mediocridade”e “Ensino Superior: Comércio ou Dádiva”, mais do que criticar o novo modelo mercantil de ensino, de falar do aparente “pacto de mediocridade” que parece pairar entre professores e alunos, num acordo implícito do tipo “me ajuda a não trabalhar que te ajudo a passar”, ou mesmo, mais do que dizer que a “coisa” não pode continuar como está, eu mesmo estava refletindo se era possível fazer diferente. Ou melhor, se ainda é possível acreditar em outros valores. Mostrar para os nossos alunos que o ensino vai além de tudo isto, e o significado está exatamente no comprometimento, em assumir o peso de buscar um mundo melhor.

Por fim, acredito que não podemos mais ficar tentando achar um meio de tornar a leveza sustentável, achando que só seremos alguém no mundo se conquistarmos um pedaço material deste mundo. Sustentável é escapar da leveza, e carregar o peso de dar as mãos, especialmente a si mesmo, e procurar dar sentido a vida, dia após dia, com os desafios que façam sentido não só para si mesmo, mas para todos.

Um lindo final de semana para vocês. Saúde, sucesso, muitos desafios e paz.

Daniel Pinheiro

4 opiniões sobre “A Sustentável Leveza de Ser (por Daniel Pinheiro)”

  1. nota 10. seguindo este raciocínio em o “Ser e o Tempo” parte II Martin Heidegger, argumenta ” que a presença do ser,aliada a insignificância do mundo, aberta na angústia, desentranha o nada das ocupações, isto é, a impossibilidade de se projetar, é o poder da existência fundado na ocupação”.

  2. Caro amigo,
    entendo que o compromisso (que é o peso, a não-leveza) está ligado ao propósito. O propósito pode ser um ideal político ou social, ou mesmo o próprio amor, que deve ser algo como a última instância do propósito. Entendo também que a consciência de ser/estar só é plena com o propósito.
    Bem, isso para dizer que, dentre as patologias sociais do momento, a depressão é mesmo a ausência do propósito. Sobre isso, lembre-me de compartilhar contigo o poema “Pelicula sobre la revolución”, que está no meu Cento e Tantos Poemas.
    Abraço
    Fausto

  3. Daniel, mais uma vez nos surpreende com seus textos maravilhosos e que nos fazem refletir bastante, diga-se de passagem. Fazendo uma breve analise do texto me veio a cabeça extamente isso, as pessoas se preocupam mais em TER do que SER. Eu tenho um cargo na empresa, eu tenho um carro do ano, eu tenho isso, eu tenho aquilo. E quando perguntamos o que voce é as pessoas não sabem responder…enfim…

  4. Dan…Difícil fazer um comentário no meio de comentários possivelmente postados por colegas doutores ou doutorandos, mas não podia deixar de dizer que Adorei… vc conseguiu, com muito brilhantismo fazer uma reflexão da citação do livro utilizada com a realidade atual. Minha parte favorita foi:

    “Pouco se tem compartilhado valores como a solidariedade e a ajuda mútua, ou em outras palavras, em quase nada se tem desenvolvido o senso de coletividade.”

    Nós educadores precisamos refletir diariamente sobre esta questão e buscar resgatar este senso de coletividade nos currículos atuais independente da modalidade em que se atue.

    Um abraço,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s