É lamentável que tenhamos que “ouvir” (ou ler) passivamente a declarações deste tipo. Ótima entrevista, péssimas respostas. E assim caminha a humanidade, com aqueles mesmos passos de formiga. E é melhor nem falar da vontade.
Segue o baile.
Daniel Pinheiro
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Padilha: Investigação da PF não inibe candidatura de ninguém
Eliano Jorge
Fonte: Terra Magazine
O deputado federal Eliseu Padilha, do PMDB gaúcho, resiste a mais de um ano de investigações da Operação Solidária, da Polícia Federal, preservada por segredo de justiça e autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. Garante sair ileso das acusações por tráfico de influência e fraudes no Rio Grande do Sul. Até cogita uma eventual candidatura a governador do seu Estado.
Embora admita que a investigação não terminará tão cedo, ele acredita que a situação não o afeta para as próximas eleições. Caso contrário, “não vai ter ninguém candidato no Brasil inteiro”, afirma Padilha. “Qual candidato que não tem algum tipo de participação em algum tipo de investigação?”, generaliza o ministro dos Transportes do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
- No resumo de todos os fatos apurados nesta dita operação, não tenho participação em nenhum deles. O que dizem é que tentei ajudar um empresário, que foi desclassificado na fase de habilitação de uma licitação – isenta-se o parlamentar.
Padilha recorre a seu posicionamento político para valorizar seu caráter: “Não aderi ao governo Lula exatamente porque tenho princípios. Nas duas eleições em que o presidente se elegeu, ele perdeu aqui, no Rio Grande do Sul, e eu estive no comando da campanha oposicionista”. Assim segue: “Aqui, a possibilidade de acordo com o PT é zero”.
Plantado nesta posição, se declara um intransigente defensor da candidatura própria do seu partido à presidência da República. “O PMDB não a tem disputado, há várias eleições, fundamentalmente, porque não tem uma proposta para o Brasil”, reclama o secretário-geral da legenda no Rio Grande do Sul.
Em âmbito estadual, após indícios de confrontos com o correligionário e senador Pedro Simon, não manteve apoio à governadora Yeda Crusius, do PSDB, e, reclamando de supostos boicotes internos, propalou uma antiga vontade de apostar num candidato peemedebista. “Ganharemos a eleição com qualquer candidato, se fizermos, no tempo certo, o que tem que ser feito. Aqui, o PMDB só perde para ele mesmo”, aposta.
Confira a entrevista.
Terra Magazine – Qual sua opinião sobre o pré-acordo do PMDB para apoiar o PT na eleição presidencial e sobre uma eventual candidatura peemedebista com Roberto Requião ou Nelson Jobim?
Eliseu Padilha - Inicialmente, eu tenho que deixar claro que, como presidente da Fundação Ulysses Guimarães, que cuida do processo de inserção e atualização política institucional do partido, eu defendo, de forma intransigente, a candidatura própria do partido à presidência da República. Partindo da tese da candidatura própria, a questão do nome eu acho que a gente pode equacionar logo depois de ter uma proposta para o Brasil. O PMDB não tem disputado há várias eleições presidenciais, fundamentalmente, porque não tem uma proposta para o Brasil. Eu acho que o primeiro instrumento para pensar na candidatura própria é nós dizermos à sociedade brasileira por que queremos a presidência da República. Isso é com um programa. Objetivamente, se o PMDB tem que ter candidatura própria, primeiro passo: ter uma proposta de governo para o Brasil que diferencie o PMDB em relação ao que está sendo proposto aí. E, depois, buscarmos, sim, nome entre os tantos que o partido tem. Seguramente, o maior colegiado de nomes com potencial para candidatura à presidência da República, em um só partido, está no PMDB. Indiscutivelmente.
Em relação à disputa pelo governo gaúcho, o senhor estava apoiando o PSDB. Agora mudou de opinião sobre uma candidatura própria do PMDB no Estado?
Eu nunca mudei de opinião. Fogo amigo. Aqueles que gostariam de me incompatibilizar com a base do partido no Estado plantaram notícias. Eu sempre fui o defensor da candidatura própria. Aliás, no Rio Grande do Sul, se tem, desde a eleição de 2006 até hoje, alguém que sempre pregou, sem pestanejar, a candidatura própria, fui eu. E, diga-se a bem da verdade, que o senador Pedro Simon também sempre defendeu isso.
Jornais publicaram que o senhor tinha essa opinião. Não considera mais que seja viável a reeleição da governadora Yeda Crusius agora?
Não, calma aí. Vamos devagar. Nunca externei qualquer opinião no sentido de o PMDB não ter candidatura. Acho que, para o PMDB, é fundamental. Se eu defendo a candidatura própria nacional, como é que eu não vou defender a estadual? Não posso: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Negativo. Meu perfil de fazer política não é assim. Não aderi ao governo Lula exatamente porque tenho princípios. Eu estou no Rio Grande do Sul, onde nós o derrotamos. Nas duas eleições em que o presidente se elegeu, ele perdeu aqui, e eu estive no comando da campanha oposicionista. Tanto o Serra quanto o Alckmin ganharam do presidente Lula aqui no Rio Grande, e o comandante fui eu. Por uma questão de coerência, entendi que não deveria aderir ao governo, até por respeito ao próprio presidente e ao PT. Então, minha posição sempre foi muito clara. Na minha cabeça, nunca passou apoiar ninguém que não fosse o candidato do PMDB. Tudo o que foi veiculado sobre isso é seguramente fogo amigo: gente que até teria interesse em apoiar outro candidato ou está aliado com outro candidato e que procurar usar a mim como escudo para proteger seus interesses.
A outra pergunta: a governadora pode vir a ser candidata? Na minha opinião, ela será candidata. E é muito bom para o Rio Grande do Sul ela ser candidata. Iremos ter segundo turno, sim. Na minha modesta forma de analisar a eleição e pelos conhecimentos que temos, o PMDB só perde para ele mesmo.
Quem o senhor vislumbra como candidato do PMDB: Germano Rigotto, José Fogaça, algum outro…?
O PMDB do Rio Grande do Sul é tão grande, que, se ele escolher o candidato no momento certo, ganha com qualquer candidato. Os dois que foram referidos são excepcionais candidatos, estão mais visíveis hoje, são aqueles que começam bem a eleição, mas não vamos nos esquecer que o Rigotto foi governador saindo lançado (na campanha) com 2% (das intenções de voto). Qualquer peemedebista com alguma estatura aqui no Rio Grande do Sul tem mais que isso (2%). Portanto, ganharemos a eleição aqui com qualquer candidato, se fizermos, no tempo certo, o que tem que ser feito. E agora, sem dúvida nenhuma, o prefeito Fogaça e o ex-governador Rigotto são aqueles que, por aquilo que a mídia diz que as pesquisas estão dizendo, têm hoje altos índices de aprovação, e a gente começaria uma campanha muito bem situado. Aqui, no Rio Grande do Sul, o PMDB tem uma macro-estrutura que, tendo uma boa candidatura e uma proposta razoável, ganha a eleição.
O senhor teme não poder participar tão ativamente da campanha para governador por ser provável que seus adversários se refiram a sua investigação na Operação Solidária, para tentar atacar a candidatura do PMDB?
Mas aí não vai ter ninguém candidato no Brasil inteiro. Eu quero que tu me digas quem é candidato que não tem algum tipo de participação em algum tipo de investigação. Chega a ser hilariante, é jocoso alguém que tenha uma investigação – porque não vamos confundir uma investigação com um processo-crime ou uma condenação preliminar… Na investigação, ao final, pode ou não ter algum tipo de denúncia. Denunciado pode ou não ter algum tipo de condenação. Portanto, estão fazendo de um mosquito um elefante. E, diga-se de passagem, à medida que o tempo passa, a base dessa investigação vai desaparecendo por aquilo que as próprias autoridades têm dito: que eu não tenho nada que ver com o fato A ou o fato B. No resumo de todos os fatos apurados nesta dita operação, eu não tenho participação em nenhum deles. O que dizem é que tentei ajudar um empresário, que foi desclassificado na fase de habilitação de uma licitação. Portanto, meu amigo, absolutamente nada. Não excluo nem a possibilidade de eu vir a ser candidato.
Ah, é? Candidato a quê?
Àquilo que o partido entender que eu possa ser.
Até a governador o senhor cogita?
Se o partido entender… Vamos admitir que tenha problema com os que têm maior avaliação nas pesquisas, nós vamos ter que buscar alternativas entre aqueles que não têm hoje tanta avaliação (positiva). E, entre eles, seguramente estou eu, né?
E quais são essas autoridades que se manifestaram favoravelmente ao senhor?
Vou fazer a pergunta ao inverso. Quero saber qual foi a autoridade que fez contra. Tem alguma acusação que tu conheças objetivamente contra mim? Nada. Eu só fui acusado até agora pela mídia.
O processo corre em segredo de justiça…
A mídia acusa, julga, condena e executa. E, depois, “ah, não, mas o cara não tinha nada que ver com isso”. Aí já foi acusado, já foi julgado, já foi condenado e já foi executado diante da opinião pública. Então, não tem, até hoje, em nenhum tribunal do Brasil, nenhum processo-crime contra mim, nem pela atividade pública nem pela atividade privada. Nada.
Eu queria saber quais são essas autoridades a que o senhor se referiu, que o têm defendido…
Mas eu não tenho que ser defendido. O que eu não posso é ser acusado. No início dessa Operação Solidária, ela começou estudando merenda escolar, obras de infraestrutura na Região Metropolitana (de Porto Alegre) e barragens onde esta empresa a que me referi, a MAC Engenharia, teria interesse em participar e não conseguiu, foi eliminada na fase de habilitação. Então, merenda, foi dito lá, pelas próprias autoridades, que eu não tenho nada que ver. Obra, na Região Metropolitana, eu não tenho nada que ver. Barragens, a empresa que teoricamente dizem que eu tentei ajudar, não conseguiu nem habilitação. E aí, meu amigo? O que sobrou? Nada.
O senhor acredita que, até a eleição, estará completamente extinta esta investigação?
Não. Infelizmente não. Essas investigações, principalmente quando não têm do que acusar, elas prosseguem por muito tempo, né? Quando tu levantas – e este é o fato – uma suspeita ou uma investigação contra alguém, o ideal é que tu consigas acusar logo e o cara seja julgado. Na medida que não se consegue apurar nada para acusar, deixa-se aquela acusação andando, pendente, tal, e, com isso, o possível investigado não consegue ter a negativa – “está aqui, já foi arquivado” – e, de outra parte, quem investigava não consegue acusar, não consegue denunciar, que é a expressão técnica correta. Eu não fui nem denunciado.
Se for efetivado o acordo do PMDB com o PT, como será seu posicionamento?
Primeiro, no Rio Grande do Sul, a possibilidade de acordo é zero. Aqui, não existe acordo. No Rio Grande do Sul, eu vou seguir o que o meu partido aqui determinar. Nacionalmente, eu sou um homem de partido. Eu não vou atrapalhar o que a maioria do partido decidir nacionalmente. Em contrapartida, eu não vou contrariar de nenhuma forma o que a maioria do partido decidir no meu Estado. E aqui eu já conheço qual é a decisão. Aqui, a possibilidade de acordo com o PT é zero. Nacionalmente, na hipótese de o PMDB se aliançar realmente com o PT – isso só vai ser definido em junho do ano que vem, tem muita água pra rolar até lá -, eu vou respeitar. Isso não me impõe a eu ir fazer campanha ou proselitismo político para o candidato do PT, né?
Terra Magazine